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Agricultura urbana em Austin, TX

Austin é a capital do estado do Texas, mas sua população não chega a um milhão de habitantes (por enquanto: segundo a Forbes, é a cidade que mais cresce nos Estados Unidos). Ao contrário do que dizem sobre o resto do Texas, Austin é progressiva, liberal, bonita, musical; os aluguéis são mais acessíveis se comparados a outros lugares legais dos EUA e, em Austin, existe um ótimo ambiente para o empreendedorismo e a tecnologia (nos últimos anos várias empresas se mudaram do Vale do Silício para lá, fugindo do alto custo de vida e do excesso de gente e de carros). Além disso, é em Austin que acontece o SXSW, o mais queridinho festival do mundo digital. A cereja do bolo é que Austin é também uma das cidades pioneiras e mais inovadoras em agricultura urbana nos Estados Unidos.

Segundo o site do governo do Texas, “as hortas comunitárias de Austin produzem cerca de 45 mil quilos de comida orgânica e local por ano”. A cidade tem um programa que regula a prática, o Sustainable Urban Agriculture and Community Garden Program (SUACG), criado em 2009. Isso significa que quem quer plantar no meio urbano ou periurbano tem um caminho definido, legal e rápido para começar – bem diferente de São Paulo, onde não existe sequer o entendimento das instituições governamentais sobre o que é uma horta comunitária, e nenhum processo legal para implementá-las.

A cidade de Austin tem vários tipos de cultivos urbanos/periurbanos. Identifiquei pelo menos quatro modalidades: as hortas comunitárias em parques, praças e até terrenos residenciais; as fazendas urbanas (urban farms), que produzem comida para vender e ocupam terrenos maiores; as hortas ligadas a alguma instituição, como escolas ou igrejas; e as hortinhas caseiras que pipocam em várias casas.

Hortas comunitárias e urban farms

Existem muuuuuuuuuitas hortas e fazendas urbanas. Dá uma olhada:

agricultura urbana(link para o mapa aqui)

As hortas comunitárias em Austin têm uma característica bem diferente das que conheço no Brasil, onde o espaço e os canteiros são compartilhados, públicos. Nas hortas que visitei em Austin é possível alugar um canteiro individual. E muitas vezes são os aluguéis desses canteiros que financiam os custos com água, materiais, ferramentas. No Festival Beach Community Garden, as pessoas que alugam canteiros individuais – 50 dólares por ano – também têm que colaborar com duas horas por mês de trabalho nos espaços comunitários.

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Farah na food pantry da residência de idosos vizinha à horta

O Festival Beach Community Garden ocupa um espaço de cerca de 2 acres, tem quase cem jardineiros regulares, lista de espera para a locação de canteiros, e distribui o excedente da produção para os bancos de alimentos locais – mais especificamente para a food pantry (a despensa) do RGB, uma comunidade para idosos, financiada pelo governo, que fica ao lado da horta. As ferramentas são de uso compartilhado, e ficam guardadas, bem organizadas, em um depósito acessível a todos. A horta é fechada, cercada por uma grade na qual foram plantadas parreiras e amoreiras – “para integrar a rua à horta e chamar a atenção de quem passa”, explica Farah, uma das coordenadoras voluntárias. O acesso é por um portão com cadeado cujo código é conhecido por todos os voluntários e locadores de canteiros. Os jardineiros também podem usar o composto produzido ali.

A horta Festival Beach é um modelo de agricultura urbana com função social: o espaço está sendo adaptado para acessibilidade de cadeirantes; algumas vezes por semana trabalham ali idosos que são remunerados por um programa de inclusão do governo, e a Coalizão Multicultural de Refugiados de Austin aluga alguns canteiros que são cultivados por refugiados de vários países. No dia em que visitei a horta encontrei uns caras do Butão. Isso também garante uma maior diversidade de cultivos, já que os jardineiros tendem a plantar espécies com as quais têm afinidade cultural e geográfica. A comida de casa 🙂

O Festival Beach Community Garden divide espaço com uma “food forest” – ou agrofloresta, como chamamos aqui. A Festival Beach Food Forest iniciou no final de 2015 e utiliza técnicas permaculturais como os swales – uma espécie de curva de nível projetada para redirecionar e infiltrar água da chuva no solo. Entre as linhas de cultivo eles utilizam o que o voluntário Johnatan chama de sheet mulching: papelão no chão, que impede a proliferação de espécies espontâneas que roubam nutrientes e podem sufocar as mudas. A food forest Festival Beach é focada na produção de frutas comestíveis ou medicinais, com ervas, aromáticas, plantas polinizadoras e fixadoras de nitrogênio ocupando os estratos mais baixos (nessa época do ano, que é muito quente – em outras épocas são plantadas hortaliças também).

E Austin tem o que provavelmente é a primeira urban farm dos Estados Unidos “nesta era”, como diz Carolann, a dona da Boggy Creek Farm, que fica na zona leste de Austin, a 45 minutos de caminhada do centro da cidade. A região antigamente era rural, conta Carolann, mas com a expansão da cidade as fazendas viraram áreas residenciais. Ela chegou em 1992, já com o objetivo de produzir alimentos. Hoje plantam em cerca de 2 acres na propriedade principal, e também em outra terra um pouco mais afastada. Só vendem na banquinha da própria fazenda, que abre quatro dias por semana. Praticam na Boggy Creek Farm o que Carolann chama de “agricultura regenerativa”. “Nosso trabalho é no solo. Mas nós não o perturbamos”. Isso significa que eles não passam arado, adubam apenas com composto e repõem minerais. Utilizam também a técnica do sheet mulching – cobrem o solo com papelão. As plantas espontâneas acabam sendo decompostas naturalmente embaixo do papelão e são incorporadas ao solo. “Os insetos e microorganismos adoram!”, festeja Carolann. 

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Carolann, dona da Boggy Creek Farm

No mesmo bairro (cinco minutos de caminhada) fica a Springdale Farm, que existe desde 2008, tem a mais linda lojinha de vegetais que você já viu, e espaços que podem ser alugados até para casamentos (já pensou em casar no meio de uma horta, que delícia?). A Springdale tem também o galinheiro mais hipster avistado durante a minha estadia (saiba tudo sobre hipsters e galinhas logo aqui, mais abaixo, neste texto).

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Galinheiro hispter tem luzinha

Segurança alimentar

Austin tem uma serie de organizações voltadas à segurança alimentar, como o Sustainable Food Center, cujo objetivo é “fortalecer o sistema alimentar local e melhorar o acesso a comida nutritiva e barata”. Para isso eles têm uma serie de programas que envolvem educação e treinamento para agricultores e plantadores urbanos, feiras orgânicas, aulas de culinária e promoção da conexão entre agricultores e grandes consumidores, como escolas e empresas. “O nosso trabalho é o de fomentar a capacidade da cidade de produzir e distribuir alimentos saudáveis”, explica Andrew Smiley, responsável pelas feiras orgânicas do SFC – cujo lema é “grow, share, prepare” (plante, compartilhe, prepare). O SFC orienta cerca de 40 grupos de agricultura comunitária e coordena três feiras orgânicas na cidade. O trabalho é voltado principalmente para as populações de baixa renda, as mais afetadas pelos desertos alimentares – mas as feiras orgânicas acontecem também em bairros centrais e atendem a todos. “Segurança alimentar é sobre a comida ser acessível não apenas financeiramente, mas culturalmente e geograficamente também” explica Andrew. Todas as feiras orgânicas do SFC participam do programa Double Dollars – que é nacional, mas começou no Texas. Através do Double Dollars, as pessoas duplicam o valor da assistência nutricional oferecida pelo governo (uma verba mensal destinada à compra de alimentos para famílias de baixa renda). Na prática, dez dólares viram vinte quando se compra alimentos orgânicos e produzidos localmente.

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Feira orgânica no centro de Austin

“Levou cem anos pra gente estragar o sistema alimentar”, diz Andrew, depois de me contar a história de como a agricultura familiar perdeu espaço para a agricultura industrial (tem a ver com as guerras mundiais e o que aconteceu depois delas). “Vai levar mais cem pra consertar”, completa ele. E é nesse job que está o SFC (e nós aqui também, e vocês aí, a banda toda 🙂

Hipsters e galinhas

A agricultura urbana virou tendência em vários lugares, e Austin é uma espécie de capital da agricultura urbana hipster – como não podia deixar de ser levando em consideração a vocação da cidade para a inovação. O que começou há duas décadas com a vontade de Carolann, da Boggy Creek Farm, de morar e cultivar comida no mesmo lugar, agora explode em identidades visuais descoladas para fazendas urbanas. Mesmo assim, tudo é muito despretensioso. Em Austin o povo é hipster sem saber 🙂

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Identidade visual moderninha para Community Supported Agriculture

E a última moda a cidade é criar galinhas. Austin é tão legal que tem um programa para a redução do descarte de lixo. O objetivo é diminuir em 90% (sim, NOVENTA POR CENTO) a quantidade de lixo enviada para aterros sanitários até 2040. E aí entram as galinhas – que comem qualquer coisa que você botar pra elas comerem. E por isso a prefeitura oferece aulas para quem quer criar galinhas, e um desconto de até 75 dólares para comprar um galinheiro. Assim, em algumas regiões da cidade é comum virar uma esquina e se deparar com galinhas atravessando a rua ou com um galinheiro no quintal do vizinho. E tem galinha até em horta comunitária! Visitei o Blackshear Neighborhood Garden, que fica entre duas casas em uma rua perto do centro – e ao chegar no fundo do terreno dou de cara com as galinhas dando uma voltinha. Dali a pouco apareceu a Liz, vizinha e voluntária, pra cuidar das fofas e botá-las de volta no galinheiro (e à noite encontrei a Liz dançando two step, o country local. Plantar e dançar, as melhores coisas!) 

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Galinha mãe leva o filho pra passear

A cidade tem um programa semelhante para quem quer começar a compostar em casa – aulas gratuitas e 75 dólares para comprar a composteira. E tem também uma start up que une compostagem e bicicleta – quer coisa mais tendência que isso? É o Compost Pedallers. Você separa os resíduos compostáveis, guarda tudo num balde, e eles vão lá na sua casa buscar, de bicicleta. O composto produzido é doado às hortas comunitárias.

Só amor, né? Viva Austin <3

Veja tudo isso na galeria de fotos:

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