Agricultura urbana e novas formas de viver

Estava lá eu em Porto Alegre curtindo a vida, comendo, encontrando os amigos e a família, dando palestra – e penso “será que tem agricultura urbana aqui? Nunca ouvi falar” – achando que nunca ouvi falar porque não tem. Pergunto no Facebook e CHOVE horta urbana. Em Porto Alegre. Saio eu atrás de visitar algumas.

Eu tinha só dois dias, então não consegui ver muita coisa – queria muito ter ido na horta da Lomba do Pinheiro, que dizem ser incrível. Concentrei no centro da cidade – NO CENTRO DA CIDADE tem não apenas horta, mas associação de horta, comunidade que tem horta, assentamento urbano que tem horta.

Quase morri de alegria. E fiquei pensando “que raios, tudo que escuto sobre Porto Alegre é que tá violento; mas tem tanta coisa legal, porque nunca escutei ninguém falando dessas coisas?”. Pois é.

(eu acho o seguinte. tem que parar de reverberar a desgraça. e começar a reverberar a positividade, os novos jeitos de viver, as coisas boas que as pessoas potentes estão criando. CHEGA de reverberar desgraceira, gente. não, decidir não olhar mais a desgraça não vai fazer com que a desgraça magicamente deixe de existir. mas aquilo em que a gente põe atenção cresce. eu quero por atenção e ver crescer e reverberar o amor, a colaboração, a gentileza, a responsabilidade, o respeito, o serviço ao mundo <3 )

Assentamento urbano Utopia e Luta

Então vamos reverberar. E conhecer novas formas de organização da vida e do agir no mundo. Uma dessas é a Ocupação Utopia e Luta. Claaaaro que quero conhecer um negócio com esse nome. Fica na Borges de Medeiros, uma avenida na qual todo mundo que vai da zona sul pro centro (meu caso, quando morava lá) tem que passar. É uma avenida estranha, porque tem umas escadarias nos dois lados, e pra chegar nos prédios tem que subir as escadarias. E ali está a Utopia e Luta, num prédio que era do INSS e estava há muitos anos vazio. Foi ocupado em 2005 e em 2009 começaram a chegar os primeiros moradores dos 42 apartamentos, que foram distribuídos através de movimentos sociais de moradia. Hoje a Utopia e Luta tem cerca de 100 moradores. O assentamento urbano tem também uma dizia de núcleos de trabalho – entre eles a horta hidropônica que fica no terraço do nono andar do prédio. A horta produz principalmente rúcula. “Mas também temos tomate cereja, manjericão, manjerona, alecrim, salsa, sálvia, arruda e uma figueira”, conta Robson Reinoso, coordenador do núcleo de agricultura urbana do assentamento. Optou-se pelo cultivo hidropônico escolhido para o melhor aproveitamento do espaço. “Além disso, o ciclo de folhosas na hidroponia é menor do que quando produzidas em terra. E assim também otimizamos o uso da água”. Uma mistura de sais essenciais leva os nutrientes até as plantas. A produção da horta hidropônica é vendida para dois restaurantes da região central de Porto Alegre, próximos ao assentamento. A entrega é feita no mesmo dia da colheita. Eles vendem também através da página do Facebook – a entrega é gratuita para o centro e bairros próximos.

O assentamento urbano Utopia e Luta faz parte da Rede de Comunidades Gestionárias, que engloba mais três comunidades no interior do Rio Grande do Sul. A linha política da Rede é libertária e apartidária: o objetivo é a organização social para o bem do coletivo. “Como tu vais bater no capital se tu não tem como se estruturar?”, pergunta Nanci Araújo, coordenadora e uma das fundadoras da ocupação. A Utopia e Luta está lá para estruturar e compartilhar a estrutura. Os núcleos de trabalho são abertos para os moradores que quiserem se engajar, e o assentamento é um espaço de resistência aberto aos movimentos sociais autônomos.

Associação das Hortas Coletivas do Centro Histórico

Perto dali, na rua Fernando Machado, encontrei Carmen Fonseca, da Associação de Hortas Coletivas do Centro Histórico. Já cheguei espantada pela simples existência de uma associação, forma de organização rara nos projetos de agricultura urbana que conheço. Carmen me conta que foi a maneira pela qual o grupo de moradores do centro, que se encontrou pelo Facebook com o objetivo comum de achar um terreno para plantar, conseguiu se estruturar para pleitear o tal terreno com a prefeitura. Eles estavam – estão ainda – de olho em um lote em uma rua vizinha. Enquanto a liberação para o uso não vem, começaram a fazer atividades como oficinas e participação em feiras, organizaram uma horta em uma escola, e agora conseguiram um espaço em uma casa tombada que tem um grande terreno e fica em uma escadaria histórica do centro da cidade.

A horta da escadaria da João Manoel está começando com mutirões. A ideia é, além de cultivar comida, trazer as pessoas para o centro e ocupar a cidade – que nos últimos anos tem sofrido com as mazelas de um centro urbano abandonado pelo poder público.

Agricultura urbana para espantar o medo de andar na cidade: temos. E gostamos disso.

Comuna do Arvoredo

Quase ao lado da horta da escadaria fica a Comuna do Arvoredo, uma comunidade intencional urbana. São três casas geminadas que compartilham um grande quintal. Vivem na comunidade vinte seres humanos (um deles é uma criança) e três gatos.

As refeições na comunidade são comunitárias; toda semana é feita uma compra coletiva agroecológica. Há uma escala para cozinhar: cada dia uma dupla é responsável pelo almoço da casa toda. E com frequência abrem as portas da cozinha (ou da garagem) para noites de hamburgada vegana e “almoços expandidos” que são puro amor – como fica claro pelo anúncio do evento no Facebook: “AQUI você vai encontrar alimentos preparados com AMOR e luta. Sem veneno & sem exploração. Para nós, COZINHAR é um ATO revolucionário. Pensamos nosso cardápio com o fim de contestar a colonização dos hábitos culinários e problematizar a forma com que a indústria de alimentos nos enfia goela abaixo um monte de veneno sem valor nutricional algum. Damos preferência a alimentos sazonais, fugimos dos transgênicos e dos industrializados, realizamos nossas compras na FAE – Feira dos Agricultores Ecologistas pois acreditamos que comprar do pequeno produtor pode fazer a diferença”.

(apaixonei e queria morar lá <3)

Essa apresentação conta bastante sobre o que une os ocupantes da Comuna do Arvoredo. Que não é apenas um lugar para morar. A casa compartilha uma série de ideais: alimentação vegetariana, de produção ecológica; espiritualidade e saúde; consumo consciente, arte e cultura (muitos dos moradores trabalham nessas áreas), autonomia e apoio mútuo.

A vida em comunidade dá suporte às expressões pessoais de cada um e ao trabalho que cada um realiza no mundo.

A comunidade recicla 60 quilos de resíduos orgânicos por semana, em composteiras em pilhas espalhadas pelo grande quintal que une as três casas. Ali está nascendo uma agrofloresta, em mutirões com incentivo da Pips, a agrônoma residente. É uma encosta com muitas árvores, que precisam ser manejadas para que o sol possa entrar de maneira a permitir uma produção mais efetiva de verduras e hortaliças. Estão programadas para este ano oficinas de manejo agroflorestal para sistemas urbanos – em que será feita a poda das árvores para a abertura do sol. 

Atualmente há no quintal muitas ervas e aromáticas, e uma linda amostra de reutilização de materiais descartados. Tem planta em sapato, em carrinho de supermercado, em mala, até em luminária que veio do Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Agricultura urbana na veia!

Meu profundo e sincero agradecimento a todes querides que me receberam (e me alimentaram) no centro de Porto Alegre – essa cidade em que nasci mas que há muito deixei, e de quem hoje nada sei. Agradeço por estarem vivendo os novos jeitos: me põe um sorriso no rosto, me fortalece e me inspira. Avante!

Gostou? Veja mais posts sobre pessoas vivendo de jeitos diferentes.

E sobre agricultura urbana.

Siga Herbívora no Facebook.

E no HerbivoraTube.

Quer ficar sabendo das novidades? Assine a newsletter.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*