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Um biofertilizante feito de cactus

O nopal está em todas no México: na bandeira do país, em cima e dentro de tacos, tlacoyos, gorditas, tlayudas, no meu coração (I <3 nopales) e agora até no biofertilizante. A ideia é produzir adubo orgânico a partir da planta símbolo do país – e fazer isso de maneira ecologicamente sensível (aproveitando restos que seriam descartados e através de biodigestores) e socialmente justa, empoderando pequenos agricultores.

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Bildo Saravia e os nopales

(Agora. Essa matéria não existe sem a história por trás dela. Quem me contou isso tudo foi um cara que é uma figura – merecia um perfil inteiro só dele. Bilbo Saravia, nascido em Durango, filho de uma família de rancheiros ricos da região. Muito jovem largou a escola, comprou umas vacas em sociedade com o primo e foi viver no rancho. Depois foi estudar aviação nos Estados Unidos e pelo mundo saiu, voando e aprendendo. Voltou para Durango para empreender – “eu fazia o que me interessava, mas não era necessariamente o que o mundo precisava de mim”. Bem, Bildo soube da palestra que eu dei em Durango e me convidou – eu, meu amigo, a amiga do meu amigo e o namorado dela – para jantar com os pais dele em um restaurante chique e ótimo – melhor comida da viagem, fizeram um prato vegano só pra mim -; e desatou a falar. Só que Bildo fala mexicano de rancho, muy rapido, e eu pouco entendi. Ficou pior ainda quando o jantar acabou; os pais, coisas mais fofas, foram embora e a gente foi pro bar ao lado. Além de produzir biofertilizante de nopal, a família de Bildo tem uma destilaria de mezcal, a cachaça de agave. O bar era barulhento, musica alta e TV ligada no UFC, as pessoas fumavam dentro, e Bildo mandou baixar uma garrafa de mezcal. Tivemos umas conversas bem interessantes, principalmente sobre trabalho e função no mundo, colaboração, serviço, essas coisas que eu gosto – mas continuei entendendo bem pouco sobre o biofertilizante. No dia seguinte fomos ao rancho de

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Mutirão de limpeza da barragem, foto comemorativa (e eu louca de agonia de altura)

Bildo nos arredores de Durango. Participamos de um mutirão de limpeza da barragem que faz

margem com o rancho, apresentei pro Bildo a agricultura sintrópica, que tem tudo a ver com o que ele pensa, mas que ele ainda não conhecia, tomamos café – mas continueeeei entendendo bem pouco de como o raio do biofertilizante é produzido. Então mandei um e-mail com perguntas em inglês e ele me respondeu em inglês de rancheiro mexicano 🙂

E, se agora eu entendi direito, é bem legal:

O Colectivo Independiente Campesino, empresa de Bildo Saravia, se associou à cooperativa UNECOFAEZ – União de Ejidos* e Comunidades Florestais General Emiliano Zapata para a produção do biofertilizante Tierra Fertil – a base de nopal, o cacto símbolo do México. A produção de biofertilizante tem principalmente duas finalidades para os agricultores da cooperativa: geração de empregos e renda e melhoramento do solo.

A UNECOFAEZ reúne agricultores de oito municípios de uma região muito montanhosa, nas cercanias de Durango, onde antigamente havia uma rica floresta que foi destruída pela extração de madeira sem planejamento. A floresta não existe mais, o solo é degradado; não há trabalho, a população depende do governo. A cooperativa foi formada nos anos 70 para lutar contra políticas desfavoráveis e fortalecer os pequenos produtores locais que mal conseguiam produzir alguma coisa. Uma das maneiras de conseguir autonomia é regenerar a terra, e assim começar a produzir alimento e gerar trabalho para a população.

O Colectivo Independiente Campesino instalou uma fábrica de processamento de nopal à base de biodigestão dentro das terras da cooperativa, na cidade de Santiago Papasquiaro. A a cooperativa recebe royalties pela venda do produto – dez pesos por litro vendido. Além disso, os cooperados – cerca de 13 mil – compram o produto a preço de custo: é possível fertilizar um hectare com 200 pesos, ao invés dos 9 mil pesos que gastariam com fertilizantes químicos. Atualmente produzem 200 litros de biofertilizante por dia, a partir de nopales silvestres e plantados pela Sierra Fertil e pelos agricultores da UNECOFAES.

A ideia é que, com o aumento da produção de biofertilizante, se inicie também a geração de energia através dos biodigestores.

* Ejido são as terras dos camponeses, originadas na reforma agrária mexicana que ocorreu no século 20. Só isso merecia uma matéria inteira também, porque, pensa, reforma agrária – que país interessante esse México. Só que os camponeses têm terra mas não têm como plantar; aquele monte de gente pulando muro pra migrar pros EUA tem terra, são miseráveis com terra – por que será? Não sei, mas olha que interessante pra estudar.

Veja o videozinho da viagem para Durango:

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