chinampas

Chinampas: agricultura sustentável pré-colombiana está de volta

As chinampas são um sistema agricultural criado em cima de águas de lagos pelo povo Nahua do México, na América pré-hispânica. Para montar uma chinampa, os Nahua delimitavam o espaço, formando canteiros longos e estreitos, com uma cerquinha de vime escorada no leito do lago raso. Depois, preenchiam o espaço com lama, sedimentos e matéria orgânica, até que ultrapassasse o nível da água. E então começavam a plantar ali: milho, feijão, abóbora, amaranto, tomates, pimentas e flores. Ou seja: as chinampas são ilhas artificiais criadas pelo homem que constituem um dos primeiros sistemas de agricultura sustentável de que se tem notíca.

A América foi tomada e saqueada pelos espanhóis, os Nahua foram praticamente extintos, os séculos passaram, as chimpas foram abandonadas. Quem visita a Cidade do México pode dar uma volta no que restou delas, em Xochimilco. O passeio consiste em algumas horas navegando pelo lago num barco colorido, bebendo cerveja, comendo, olhando para as margens – que são as chinampas. E quem presta atenção vai ver algumas delas plantadas com comida. Hermanos, as chimpas estão renascendo!

A empresa Yolcan Orgânicos é uma das responsáveis por esse renascimento. Estive com um dos sócios, Lucio, visitando uma dessas chinampas em Xochimilco, que fica a cerca de 45 minutos de carro do centro da cidade. A primeira coisa que Lucio me contou, quando soube que eu era do Brasil, foi sobre sua empolgação com a agricultura sintrópica de Ernst Gotsch. Ex-estudante de direito e de filosofia, Lucio abriu uma loja de orgânicos no tempo da faculdade e foi cooptado pela agricultura sustentável. Estudou técnicas agrícolas tradicionais e ancestrais e começou a trabalhar com campesinos de vários lugares, vendendo a produção deles para restaurantes.

chinampas
Lucio e o chapín: placas de lodo do fundo do lago para plantar sementes

A Yolcan trabalha nesse modelo que Lucio chama de “agricultura orgânica campesina”: identificam pequenos agricultores, fornecem assistência e um canal de vendas. “Os problemas se repetem”, diz ele. “Desvalorização do trabalho campesino, agricultores mal pagos, técnicas que se perdem; há muita dependência de agrônomos e de insumos químicos, não há organização, registro, calendário de plantio. Queremos atuar nesses problemas e abrir mercados de comércio justo”. Atualmente, além de vender para os restaurantes, fornecem cestas semanais para 130 clientes, em um sistema de assinatura.

O cultivo de comida nas chinampas entrou em declínio com a chegada dos espanhóis. Com a desvalorização da agricultura em meados do século XX, e as pessoas indo trabalhar nas cidades, a tradição se perdeu. “Os remanescentes indígenas ainda plantam, mais para a subsistência”, conta Lucio. Em algumas regiões do México, boa parte da população do campo migrou para as cidades e empobreceu, ou permanece miserável e consumindo produtos industrializados nas áreas rurais. “Muitos dos pequenos produtores fazem monocultura no método convencional e vendem sua produção, a um valor muito baixo, para grandes atacadistas”. As chinampas são patrimônio cultural da FAO e da Unesco e área de proteção ambiental. Não podem ser vendidas e nem se pode construir casas. No entanto, a mancha urbana está se alastrando: 17% de todas as chinampas estão urbanizadas legalmente, e em Xochimilco 90% estão abandonadas. A Yolcan aluga sete chinampas de famílias originais do local – nenhuma destas famílias praticava a agricultura.

O projeto começou há sete anos, e a proposta é retomar a vocação das chinampas para o cultivo de alimentos. “Se as chinampas voltarem a ser um trabalho com valor e rentável, no lugar de construir casas as pessoas vão fazer agricultura”, acredita Lucio. E uma parte importante do projeto é o apoio de restaurantes e chefs, alguns dos melhores do México, como Enrique Olvera. Lucio me mostrou três chinampas onde são produzidos vegetais para cinco restaurantes que financiaram a restauração da área de 7.500m2.

Hoje em dia as chinampas são muito maiores do que as originais, pois a maior parte dos canais, que garantiam a irrigação, foi aterrada. Há também poluição da água por esgoto e agroquímicos. Mas a Yolcan segue plantando em uma mistura de técnicas agroecológicas e tradicionais – como o chapín para as sementeiras. Consiste em retirar lodo do fundo do lago e com ele fazer placas nas quais são plantadas as sementes. Nas camas de hortaliças, sempre cobertas com palha do capim local, utilizam composto, bokashi, biofertilizante e caldas minerais. “O solo das chinampas é rico em matéria orgânica: cerca de 9% a 11%. Há sempre disponibilidade de água e material para mulch (cobertura) e para composto, como plantas aquáticas”. E até hoje são abundantes em Xochimilco a espécie de árvore utilizada pelos Nahua para reforçar os limites dos canteiros, o Willow (Salix bonplandiana), que é de fácil propagação, fornece proteção contra o vento e não faz muita sombra, pois tem a copa delgada.

“Os Nahua acertaram muito quando criaram as chinampas. Os canais fornecem refúgio, reprodução, e alimentação para peixes, anfíbios, tartarugas, pássaros etc. Assim como a agricultura sintrópica, é um sistema de alto manejo humano cujo resultado é o aumento da quantidade e qualidade da vida do sistema”, comemora Lucio. “Xochimilco tem 800 hectares de chinampas. Nas cinco áreas chinampeiras do México, são 2 mil hectares. Daria para alimentar a Cidade do México inteira!”. Com um sistema de agricultura sustentável tradicional e pré-colombiano. Vamos torcer 🙂

___

Gostou? Veja mais posts sobre hortas.

Siga Herbívora no Facebook.

E no HerbivoraTube.

Quer ficar sabendo das novidades? Assine a newsletter.

2 comentários

  1. Ana Alice

    Me ajudou batante essa matéria.

  2. Claudio Leite Nahra

    Que legal a matéria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*