Como desistir da vida corporativa

Atenção: texto publicado originalmente em 2009, no extinto blog Typewriter (impressionante como ainda faz sentido). Com edições atuais entre colchetes.

Um dia me pediram para que eu ensinasse como desistir da vida corporativa. Me deu uma idéia para meu novo trabalho: posso fazer consultoria para quem quer pedir demissão e não sabe por onde começar! [Eu era uma visionária! É isso que fazem os life coaches hoje em dia]. Eu sou boa nisso. Já pedi demissão uma porção de vezes – e nem sempre (quase nunca) para ir para outro emprego.

Aliás, não sou só eu que acredito nos benefícios de pedir demissão – ou ser demitido. No SXSW [de 2009] fui a um painel chamado “Quitters – how to quit a perfectly good job and start your own business” – ou algo assim. Como disse o André [um dos diretores da agência Salve, onde eu trabalhava na época deste texto], citando a terapeuta dele, “não existe nada pior do que um bom emprego”. Bons empregos são paralisantes. Principalmente se o salário é bom. Esses são os piores. A gente se acostuma e acaba virando refém de um emprego porque não tem coragem de abrir mão do salário. Nesse caso, ser demitido é a melhor coisa que pode te acontecer…

Enfim, já falei bastante sobre trabalho e nossa relação esquizofrênica com ele [em um outro post que foi o mais acessado e comentado de toda a história do extinto blog e um dia vou publicar nesse] . Então, começando minha consultoria – por enquanto gratuita, aproveite – aqui vão algumas dicas para que você consiga, um belo dia, chegar pro seu chefe e dizer: “take this job and shove it, man!” (me manda um e-mail contando quando você conseguir).

– Desistir da vida corporativa faz mais sentido quando você tem um propósito. Que pode ser ter uma vida melhor, surfar todos os dias, criar seu filho no interior, trabalhar menos, escrever um livro, fazer alguma coisa útil para a humanidade, salvar as baleias, etc.

– Então, ter um plano é altamente recomendado. Você vai pedir demissão para fazer exatamente o quê? Procurar outro emprego? Abrir seu próprio negócio? Viajar? Voltar pra casa da mãe?

– Seja qual for seu plano, ter algum dinheiro guardado é aconselhável. Se você é CLT e já trabalha faz um tempo, tente conseguir um acordo para ser demitido e poder sacar seu FGTS. Se não tem dinheiro guardado, tem que ter também um plano para conseguir dinheiro sem o seu emprego atual. Ter dinheiro guardado garante segurança para o grande passo que é pedir demissão. Também viabiliza seu plano pós-demissão, seja ele qual for.

– Como ter dinheiro é bem importante, vamos reforçar o pior cenário, que é você não aguentar mais seu trabalho mas não ter nenhum dinheiro guardado. Nesse caso, pode ser por dois motivos: ou você ganha mal – e daí seu emprego nem é assim tão bom para justificar ficar nele – ou você ganha bem, mas gasta potes para compensar sua dedicação a um trabalho que você não gosta. Seja qual for o motivo, you’ve got a problem!  Vai ter que readequar seu plano. Ou vai conseguir outro emprego (melhor, espero) em seguida, ou vai viajar e trabalhar de qualquer coisa no exterior (uma experiência geralmente enriquecedora, nem que seja apenas culturalmente), ou vai vender algum bem (carros se prestam pra isso). Ou vai arrumar um sócio investidor para sua próxima empreitada. Ou vai morar no interior, no campo, vender picolé na praia – em um lugar, enfim, onde o custo de vida seja menor e você possa se sustentar com menos dinheiro.

– O que nos traz a um ponto extremamente importante: você é capaz de viver com menos dinheiro? Desistir da vida corporativa geralmente significa um “downgrade” na vida financeira e social. Pelo menos inicialmente (isso depende do seu plano). Pode dizer adeus aos carros zero km, às viagens pro exterior, aos tratamentos de beleza, roupas, sapatos, make up, shows, livros da Amazon, almoços e jantares de mais de 50 reais [hahahaha, 2009!], etc. Você consegue? Tem gente que não consegue e não quer nem tentar.

Então, caro candidato a largar a vida corporativa, espero que esta pequena introdução tenha sido útil para levantar os primeiros questionamentos. Meu último conselho é: go for it, se é isso que o seu coração está pedindo. Se não aguenta mais o trânsito, ficar parado na marginal poluída, se acha que há vida fora do cubículo. Você sempre pode voltar se não der certo, ou se não aguentar o tédio da praia deserta.

E como “food for thought”, fica aqui o link para uma matéria sobre um cara que largou a vida corporativa mesmo antes de entrar nela, e pelo jeito é muito feliz, obrigado.

 

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