agricultura urbana cuba

Como Cuba começou a cultivar alimentos nas cidades

Eu tinha uma expectativa muito grande sobre a agricultura urbana em Cuba. Sempre ouvi falar — e sempre falei nas oficinas de Horta-em-qualquer-lugar da Herbívora — que Cuba tinha muitas hortas urbanas porque nos anos 90, quando houve a dissolução da União Soviética, o país passou por uma escassez de alimentos muito grande e as pessoas começaram a plantar nas cidades. Eu fui para Havana para ver essas hortas e ouvir essa história em primeira mão, de quem mora lá.

E foi isso mesmo que aconteceu — à princípio. No chamado “período especial” Cuba ficou sem comida e sem insumos agrícolas, me contou Tony, o gerente do Organopônico Vivero Alamar, a maior horta urbana de Havana. Naquela época o país praticava uma agricultura altamente dependente de insumos químicos, importados dos países do bloco soviético, assim como a comida. “Cuba usava, por área, mais químicos que os Estados Unidos e o Canadá”, afirma Tony. O país ficou ao mesmo tempo sem comida, sem agroquímicos, e sem suporte técnico para a agricultura. Então o governo implementou o Programa Nacional de Agricultura Urbana, através do Ministério da Agricultura e secretarias de Planificação Física e Recursos Hidráulicos. “O objetivo era ceder terrenos nas cidades para as pessoas plantarem comida”, disse Cary Cruz, que na época era funcionária da secretaria de Planificação Física e participou da implementação do programa. Cary — hoje na Fundação Antonio Núñez Jimenez de La Naturaleza y El Hombre trabalhando com a disseminação da permacultura em Cuba — disponibilizou um artigo escrito por ela sobre agricultora urbana na América Latina que serviu de base para a minha pesquisa (e que pode ser acessado aqui). Segundo o artigo, o programa “assegurou apoio técnico, facilitou a entrega de sementes e implementos agrícolas e envolveu os governos municipais. Dois anos depois, as hortas populares ocupavam mais de 1500 hectares”.

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Além de ficar sem comida, sem insumos e sem suporte técnico, Cuba perdeu também muitos postos de trabalho — já que fábricas fecharam por falta de matéria prima. “A agricultura urbana proporcionou alimento, trabalho, e uma fonte de renda para as populações das cidades”, contou Tony.

Organopônicos

Andando pela cidade, porém, não é fácil ver hortas urbanas. Ainda que Cary Cruz assegure, no artigo de 2016, que “a agricultura urbana se mantém presente em todas as cidades do país, aglutinando mais de 300 mil pessoas e superando 50 mil hectares plantados”, a impressão do visitante em Havana é que não existem mais muitas hortas na cidade.

“Com a retomada da economia e a abertura do país para o turismo, os postos de trabalho voltaram a existir e as pessoas foram migrando da agricultura de volta para o mercado — fábricas, escritórios, turismo”, explica Tony. Além disso, como aponta o artigo de Cary, “a cidade necessita de espaço para outras questões que ainda não foram resolvidas, como moradia e serviços destinados a um crescente mercado turístico; e isso afeta de maneira direta as áreas destinadas à agricultura urbana”.

Mesmo assim, hoje em dia ainda existem vários dos “organopônicos” gerenciados pelo governo ou por cooperativas. Os organopônicos são sistemas de cultivo intensivo, que produzem fundamentalmente hortaliças e condimentos, e marcam a transformação da produção de subsistência para uma agricultura urbana voltada à comercialização.

Eu precisaria de um visto de jornalista — o que não pedi antes — para conseguir visitar os organopônicos e fazer entrevistas. Mas me fiz de desentendida e entrei em um. O encarregado me contou um pouco sobre como funciona e deixou que eu fotografasse um canteiro. Nessa horta gerenciada pelo governo os funcionários recebem 80% dos lucros de tudo que é vendido, de acordo com as responsabilidades dos cargos. É um espaço grande, de cerca de 1800m2, e ocupa uma esquina do bairro de Miramar, onde estão as embaixadas e hotéis chiques.

 

Também consegui, depois de muita pesquisa, o contato do Tony, do Organopônico Vivero Alamar, que fica a cerca de 12 km do centro de Havana. Ele me recebeu, me contou toda a história e me levou para conhecer a horta, que começou em 1997 com 800m2. O lugar era um viveiro de plantas, e quando o governo começou a distribuir terras em usufruto para quem quisesse plantar, as cinco pessoas que trabalhavam no viveiro formaram a cooperativa. Hoje são 25 acres e 133 cooperativados. Produzem cerca de 300 a 400 libras de alimento por mês sem utilizar nenhum produto químico — apenas húmus de minhoca, composto, bagaço de cana, esterco de vaca, adubos verdes e fertilizantes foliares. Receberam ajuda de ONGs europeias para implementar os sistemas de cultivo, e hoje têm estufas, sistemas de irrigação e oito poços de água.

No verão, as temperaturas são muito altas e é difícil produzir hortaliças. Nessa época o Vivero Alamar produz mais ornamentais e flores. Vendem 80% da produção para a comunidade do bairro de Alamar, na lojinha do Organopônico. O restante é vendido para hotéis e restaurantes famosos — como La Bodeguita del Medio, Floridita, Hotel Nacional, Hotel Telegrafo, Iberostar — e para empresas estatais. Pelo uso da terra, a cooperativa tem que oferecer uma contrapartida ao estado: vendem a preços baixos para a comunidade em feiras no centro da cidade. É um trabalho importante, pois em Havana não há muita disponibilidade de verduras e hortaliças, ainda mais orgânicas. “Quando Cuba se abriu para o turismo e os negócios particulares, não houve um incremento da produção agrícola. O preço é estabelecido para o alto porque os restaurantes que vendem para turistas podem pagar mais”, conta Tony.

 

A agricultura urbana, característica de uma época em Havana, agora faz falta. Mas o problema da agricultura em Cuba não nasceu ontem, e é praticamente o mesmo de outros países da América Latina — com algumas particularidades. Ao chegarem nas Américas, os espanhóis trataram de ocupar a terra com monoculturas para exportar para a metrópole: algodão, café, cana. Com isso, erradicaram os cultivos nativos de subsistência. As pessoas passaram a trabalhar nas monoculturas e nos engenhos, por salários que não eram o suficiente para comprar comida. Além disso, as monoculturas esgotavam o solo e foram responsáveis pela extinção de grandes áreas de florestas e vegetação nativa (esse cenário é detalhado em profundidade no livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galleano).

Em Cuba, além desse contexto histórico (que na maior parte da América Latina pouco mudou desde então), também houve a peculiaridade da revolução comunista, em 1959. Nesse período, muitos profissionais deixaram o país. Para suprir a demanda de engenheiros, médicos, arquitetos e etc, o governo incentivou os jovens do campo a se mudarem para a cidade para estudar. Foi quebrada, aí, a cadeia da agricultura familiar nas áreas rurais. E agora o problema é o mesmo de outros países: “Agricultura é um trabalho duro. Os jovens não querem. Querem estar bem vestidos trabalhando em escritórios com ar condicionado”, diz Tony.

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