Decidir fazer outra coisa é diferente de largar tudo

Estou saindo da sociedade em uma empresa de UX design que ajudei a fundar e a construir.

Me perguntaram se eu não fico “meio assim” de largar a minha empresa. Vamos desconstruir essa frase:

Pelo lado da segurança financeira, fico um pouco “meio assim” mesmo — seria mais prudente, de fato, ficar ali ocupando a cadeira de diretora de uma promissora e conceituada consultoria e receber o pro-labore todo mês. (empreender está longe de ser uma garantia de segurança na vida, mas ainda é mais seguro do que ser freela — ou hippie).

Já “minha empresa” pressupõe propriedade (equivalente à minha casa, meu carro) e minha obra na vida, aquilo que eu construí. Bem. Não foi a única coisa que construí. Digamos que minha vida toda é minha obra. Assim como construí essa empresa, posso construir outras coisas. E quem possui algo sempre pode se desfazer disso.

Por fim, o “largar” denota uma espécie de desistência. Soa como “sair correndo abandonando tudo”.

Mas eu não estou desistindo de coisa nenhuma. E nem largando nada. O que fiz me trouxe até aqui. Tudo que fiz me construiu e está incorporado ao que sou e ao que farei daqui pra frente. Não existe “largar” as experiências que são eu.

Eu apenas decidi não continuar fazendo uma coisa pela qual não tenho mais entusiasmo. Até poderia — mas escolhi não. Eu escolhi ir fazer outra coisa.

Uma amiga que não tem carro foi me visitar com o carro do pai dela. E comentou que não poderia imaginar que, aos 40 anos, ia estar pegando o carro do pai emprestado.

De onde ela tirou essa estranheza com o rumo da própria vida? Quem disse que aos 40 anos a pessoa não pode usar o carro do pai? É esperado da mulher de 40 anos classe média com curso superior bem sucedida que tenha a vida resolvida: já tem que ter sido mãe, chefe, ter um bom salário, empregada e carrão. A gente associa a ausência de posses materiais, a falta de um emprego estável, e as mudanças frequentes de ideia e de carreira a um fracasso na vida. Amiga, não é só tu que nunca poderia se imaginar aos 40 pegando o carro do pai. A sociedade não imagina isso. Isso desafia o roteiro do planejamento social para mulheres de classe média com curso superior bem sucedidas.

Mas eu tenho algumas amigas de 40 ou mais — classe média com curso superior bem sucedidas — que não estão cumprindo o roteiro do planejamento social.

Tenho uma amiga de 50 que mora no exterior, toca guitarra em gigs do circuito alternativo enquanto faz cursos gratuitos em universidades.

Tenho uma amiga de quase 60 cuja principal ocupação é organizar mutirões de castração e vacinação para animais de favelas — e conseguir empresas e pessoas para patrocinar os custos.

Tenho uma amiga de mais de 40 que fez mestrado e doutorado em uma carreira ‘cabeça’ — e daí foi morar no interior e trabalhar com cavalos.

(não tenho nenhuma amiga que foi morar em ecovila, mas poderia).

Em comum, essas amigas têm menos dinheiro do que tinham ou poderiam ter em empregos corporativos e um estilo de vida cujo foco não é em consumir, acumular, construir carreira, “subir” na vida. Cuja noção de sucesso não é o lugar-comum. Sucesso, pra elas, não tem nada a ver com o planejamento-da-sociedade-para-mulheres-de-40-e-mais.

Lembro da caminhoneira do episódio 01 da terceira temporada de Black Mirror (Nosedive). Quando vi, pensei — ”olha, sou eu!”. Ela percebeu a crueldade e inutilidade de correr atrás do modelito padrão. Disse “não estou mais a fim. Vou fazer outra coisa”. Saiu da rat race. Optou por não fazer. Apertou o botão “não querer”.

Eu não tô dizendo que todo mundo tem que pedir demissão e ir morar numa ecovila.

(como diz a personagem principal de Nosedive para a caminhoneira: é muito fácil para você dizer isso, afinal você já teve todas essas coisas. Eu ainda tenho que chegar ).

Eu só tô dizendo que a gente tem que parar de achar que só existe um modelo de sucesso na vida.

Também não estou falando da dificuldade de conseguir trabalho depois dos 40, de como o mercado é cruel com mulheres mais velhas, de como faltam oportunidades nesse país desigual (tudo verdade); não estou falando de gente que quer, mas não consegue — o emprego, o carrão, a empregada. Também não estou falando de gente que precisa sustentar a família e não tem a menor condição — ou vontade — de “largar tudo”. Estou falando de gente (privilegiada, sim) que já teve todas essas oportunidades na vida. De gente que ainda poderia estar lá sentada na cadeira de diretora — mas escolheu não.

Escolher é diferente de desistir.

Decidir fazer outra coisa é diferente de largar tudo.

***

A Saiba+ não foi vendida para o Google e eu não embolsei alguns milhões e vou rodar o mundo (vou dar uma viajada, claro; já viu demissão sem viagem? Mas vai ser sem os milhões, mesmo). Vou continuar trabalhando muito, até mais do que antes. Mas, agora, pra casa e pros bichos (lavando roupa, limpando cocô, afofando gato, alimentando todo mundo, varrendo quintal, tirando os pelos dos móveis etc.) e pra mim (com reportagens para o site, Facebook, canal de YouTube, oficinas de horta, eventos de comida da Herbívora). E para os outros: vou voltar a ser uma consultora independente. A partir de janeiro, podem me chamar para coisas como cozinhar em eventos e para quem precisa comer, ajudar em mutirões de castração, fotografar e escrever sobre plantas, comida, viagens e pessoas fazendo coisas legais; compor equipes de praticamente qualquer coisa que trate de meio ambiente, educação, natureza; dar palestras, plantar, virar composto, colher; fazer imersão, entrevistas, organização de conteúdo e ajudar equipes de marketing e produtos a entenderem como seu produto digital pode ser de fato útil para alguém. Me chamem pra ir nas corporações para falar sobre propósito, para fazer hortas nos telhados, dar workshops para os colaboradores, ajudar a planejar projetos que auxiliem a comunidade e projetos culturais que envolvam meio ambiente e sustentabilidade.

Me chamem principalmente pra ajudar os outros. Nisso eu tô dentro. É isso que escolhi fazer agora.

(publicado originalmente no Medium)

2 comentários

  1. Parabéns pelo excelente texto e reflexão. Muita felicidade e sorte, ou seja lá qual for o adjetivo que você busca, em sua nova fase. : )

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