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Decrescimento: desenvolvimento em um planeta de recursos finitos

Crescimento contínuo é a principal medida do desenvolvimento de um país. A economia precisa estar aquecida, empregos precisam ser gerados, objetos precisam ser produzidos e consumidos. Porém, o crescimento econômico nos moldes atuais está levando o planeta à exaustão – tanto de pessoas quanto de recursos naturais. Quando estudamos biossistemas, observamos que crescimento contínuo é impossível dentro de ciclos fechado e equilibrados ecologicamente. Simplesmente a conta não fecha. Uma frase bonita e clássica diz que “é impossível crescer infinitamente num planeta finito”.

Quando meu colega do curso de permacultura no Ecocentro IPEC Márcio Lino de Almeida falou que estudava o Decrescimento, fiquei extremamente curiosa. Márcio e Fernanda – que foram para o Ecocentro com o bebê Theo na barriga – são acadêmicos e pesquisadores. Márcio, biólogo, faz mestrado em Desenvolvimento Sustentável na UnB. E sentou comigo debaixo das árvores do Ecocentro em uma noite estrelada para me contar sobre seu objeto de pesquisa.

O que é o Decrescimento?

Hoje pensamos em desenvolvimento exclusivamente como crescimento econômico. Mas isso é verdade apenas até certo ponto. Ok, para melhorar a vida de uma pessoa extremamente pobre você precisa de fato dar a ela acesso a bens materiais – isso melhora a qualidade de vida de uma pessoa, sem dúvida. Só que existe um limite para isso, e hoje em dia já se tem noção desse limite, além do qual o crescimento econômico não traz melhoria na qualidade de vida, podendo, muitas vezes, piorá-la.

O Decrescimento é uma linha de pensamento que desafia a ideia de que o crescimento econômico deve ser o objetivo da humanidade ou a única maneira de um país se desenvolver. Há um reconhecimento de que o modelo atual de desenvolvimento está trazendo problemas ambientais e sociais, e já se sabe que as degradações ambientais estão relacionadas com o modo do homem produzir e consumir. Então surge a ideia de que precisamos dar um jeito de desenvolver sem destruir a natureza, sem depender de um crescimento econômico infinito.

Decrescimento é o mesmo que desenvolvimento sustentável?

Não. Desenvolvimento sustentável é uma noção surgida em 1987 que pode ser entendida como “crescimento sustentável”. De lá pra cá falamos muito sobre isso, mas não houve avanço nenhum. E não foi por falta de esforço, mas sim porque todos os esforços levaram à mesma conclusão: não tem como continuar crescendo sem continuar destruindo a natureza do jeito que a gente faz hoje. O desenvolvimento sustentável está há mais de 20 anos na boca de todo mundo, mas não se chega a lugar nenhum, não se vê nenhuma mudança, há decadência cada vez mais rápido. Começou a haver um descrédito dessa noção.

As consequências do desenvolvimento medido pelo crescimento econômico são apenas ambientais?

As críticas que os pensadores do Decrescimento fazem ao desenvolvimento estão baseadas em dois pilares. O ambiental, com as consequências que o crescimento traz para o ambiente. E a degradação social. O crescimento econômico traz um aumento da desigualdade social. Além disso, o filósofo Ivan Illich falava que a divisão do trabalho, a especialização cada vez maior do trabalhador, traz uma perda de habilidades. Você se especializa naquela função, é treinado pela empresa a fazer só aquilo; se um dia você perde o emprego você não tem nem mesmo a capacidade de sobreviver com o mínimo, porque não tem habilidade nenhuma, você foi reduzido à função que ocupava na empresa. E a economia está cada vez mais focada, porque a especialização leva a uma produção mais eficiente.

Então os problemas do crescimento econômico atingem outras áreas da vida cotidiana?

A dinâmica do mercado leva ao crescimento, por conta da competição pela produtividade, eficiência econômica. Isso força as empresas a correr atrás do crescimento, e quem não faz isso é esmagado pelos outros: grow or die. Essa ideia de crescimento acabou se infiltrando para dentro da sociedade e colonizou esferas que não são econômicas. A gente nasce dentro dessa cultura que praticamente iguala desenvolvimento com crescimento, melhoria com crescimento, isso está enraizado na nossa cabeça. Quando o raciocínio econômico do crescimento, da busca pelo ganho econômico acaba escorrendo para as outras esferas da sociedade, ele entra também nas relações pessoais. A gente começa a enxergar tudo como uma relação de troca, e se há troca você não pode sair dela ganhando menos do que tinha quando entrou. Se a pessoa te pede um favor, você vai pensar no que vai ganhar com isso. A gente tem perdido nessa modernização da sociedade algumas coisas que faziam parte das relações humanas: a retribuição, a doação, algo que o sociólogo Marcel Mauss chamava de “dádiva”, a relação de dádiva entre as pessoas. Então, para mudar isso, temos que mudar primeiro nossos valores.

Como o Decrescimento aconteceria na sociedade atual?

A palavra decrescimento leva ao entendimento de uma contração. Mas essa não é a ideia central. Sabemos que qualquer contração econômica gera caos na sociedade. Serge Latouche, um dos maiores pensadores do Decrescimento, diz que o decrescimento não pode ser visto como um meio para atingir o objetivo do desenvolvimento verdadeiramente sustentável. O caminho não deve ser o de contrair a economia até se chegar a um ponto de equilíbrio entre o que consumimos e o que a Terra permite produzir. A ideia é que a contração não seja um meio, mas um fim. A que se vai chegar por meio da transformação da sociedade. É preciso discutir o crescimento enquanto modelo de desenvolvimento, mas a transformação desse modelo não se daria por meio de políticas públicas, modelos e políticas econômicas, mas sim por uma transformação de valores da sociedade que, por fim, causaria um decrescimento natural.

Então a mudança se daria a partir de escolhas cotidianas individuais?

Sim, as decisões individuais cotidianas importam. A ideia é que isso comece nas pessoas. Claro que iniciativas do setor produtivo também são bem vindas. Empresas não lucrativas são um exemplo de movimento em direção ao Decrescimento, porque elas fogem da lógica do lucro, da corrida atrás do lucro e da eficiência. As empresas não lucrativas simplesmente não visam o lucro. Existem também as empresas não só lucrativas. A diferença é a prioridade que elas dão para o lucro. Ao tomar decisões a empresa lucrativa pensa em qual vai ser o impacto disso no seu lucro. A empresa não lucrativa não tem o lucro como meta. Ela procura simplesmente o equilíbrio, se pagar. Já a empresa não só lucrativa busca o lucro, mas esse não é necessariamente o principal objetivo. Então ela pode escolher coisas diferentes: demitir funcionários ou reduzir a margem de lucro?

Você pode apontar algumas das iniciativas no sentido do Decrescimento que já estão em curso no mundo hoje?

Existem algumas pequenas iniciativas que se alinham com essa ideia. Como a simplicidade voluntária: pessoas que podem viver de um jeito mais consumista, mas por opção decidem consumir menos, trabalhar menos. Ou os movimentos das ecovilas, de gente que tenta viver de uma forma mais integrada a natureza.

Precisamos encontrar propósito e prazer em coisas que não sejam o consumo e a produção. A gente consome demais. A gente dá muito valor para o prazer que se tira do consumo e acaba esquecendo outras coisas que também são prazerosas e trazem sensação de preenchimento, e que não precisam ser um consumo – como uma conversa, convivência, laços mais estreitos entre as pessoas, contato com a natureza, ter um parque bonito pra visitar.

Em termos práticos, o decrescimento passa por consumir menos, gastar menos. Isso teria um reflexo na nossa forma de trabalhar?

Ao buscar consumir menos, você começa a buscar trabalhar menos. Se você não vê necessidade de consumir, e não vê mais propósito e razão para ter um consumo tão grande, você também vai começar a questionar o motivo de estar trabalhando tanto.

A gente vive numa sociedade que idolatra o trabalho. A gente fala que Deus ajuda quem cedo madruga, que o trabalho enobrece o homem. Ou então usamos como xingamento palavras como vadio, vagabundo. A gente tem um olhar muito negativo para a pessoa que não trabalha, ou que não trabalha tanto, não se esforça no trabalho. Vemos essas pessoas como alguém que não está contribuindo para a sociedade. Uma das características dessa sociedade do decrescimento seria também a diminuição do tempo de trabalho.

Para saber mais:

The Globe Downshifted – Serge Latouche

The World Downscaled – Serge Latouche

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7 comentários

  1. Pingback: Para avançar é preciso decrescer… | O VENTILADOR

  2. Ótimo texto.

  3. Paula Zomignani

    Amei Ale! Incrivel a materia! Vou compartilhar! Bjoooo e saudades!

  4. Maria Lucia Peixoto

    Lindo! Posso passar adiante? E recomendo o livro “Chega de desperdício”!

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