epicentro dalva

As empoderadas da agrofloresta

Desde que comecei a pesquisar sistemas de agricultura sustentável e estudar permacultura e agricultura sintrópica, venho procurando pelo protagonismo feminino — que eu sei que existe. No entanto, os professores que encontrei nesse caminho eram homens. Com eles aprendi muito e agradeço, mas eu queria ver as mulheres, como elas estão fazendo e o que estão ensinando. Em abril, durante o curso de Introdução a sistemas agroflorestais que fiz no Sítio Semente, em Brasília, conheci as residentes Andréia e Vivi, e comentei isso com elas. E Andréia me falou do Epicentro Dalva, coordenado por Karin Hanzi, a filha da Marsha Hanzi, uma das precursoras da permacultura no Brasil. Então, ao voltar da #herbivoraagrotrip2017 eu fui direto para o Epicentro Dalva para uma residência de duas semanas.

Karin morou no sítio Dalva — que fica ao lado de Toledo, sul de Minas Gerais — dos dois aos nove anos de idade, até a família se mudar para a Bahia. Lá, seus pais ficaram amigos de Ernst Gotsch, em cujo sítio Karin costumava passar as férias. Cresceu vendo a mãe — e o cara que sistematizou a agricultura sitntrópica — fazendo agricultura. Mas aos quinze anos foi embora do Brasil, primeiro para estudar na escola do Krishnamurti em Londres e depois foi fazer faculdade nos Estados Unidos. Virou engenheira mecânica e ficou alguns anos trabalhando nos EUA e na Suíça. “Até que percebi que estava desperdiçando minha vida em cubículos”. Quando seu pai morreu em um acidente de carro, voltou ao Brasil e resolveu seguir os passos de Marsha: trabalhar na terra. “Aprendi muito com a minha mãe. A véia tinha razão! Chega uma hora que a gente volta às origens”.

Era 2012. A terra estava parada, com vacas compactando o solo por muitos anos. “Essa região perdeu muita biodiversidade genética e a terra foi muito degradada por causa da agricultura industrial” (quando era criança e a família morava lá, os colegas filhos de agricultores chegavam na escola com cheiro de veneno). Karin ficou duas semanas no Dalva, sozinha, sem eletricidade e nem água. Achou muito duro e desistiu. Foi visitar a mãe no sertão baiano, foi visitar a amiga Gudrun, filha de Ernst. Foi com ele a um curso em Ribeirão Preto e visitar a fazenda Toca. Acabou ficando lá como voluntária e depois foi contratada como coordenadora de pesquisa e desenvolvimento do projeto de agroflorestas, trabalhando com Ernst. Um ano depois foi direto dali para o Dalva, dessa vez decidida — e preparada — a começar uma agrofloresta nas terras onde cresceu.

 

O objetivo do Epicentro Dalva é fazer fruticultura. Karin quer ter 1500 especiais diferentes de árvores frutíferas. No final de 2015 começou a preparar a terra e a oferecer cursos. O primeiro, com Juã Pereira (do Sítio Semente), atraiu os primeiros voluntários. O trabalho é grande. Karin quer sistematizar a produção agroflorestal, “calcular os custos, quanto tempo de trator é necessário, quanto de insumo. Para que outras pessoas possam aplicar. Para apoiar o pequeno e o grande também, pra todo mundo entrar na brincadeira”. E assim o Epicentro Dalva está se tornando um lugar de aprendizado. “Queremos ser um centro de desenvolvimento de um novo modelo de agricultura. Produzir e ensinar, ser um lugar onde as pessoas aprendam de verdade, na prática. Meu sonho é formar agentes para disseminar e multiplicar o conhecimento sobre agroflorestas”.

E o jeito Karin de ensinar é generoso e organizado. Durante minha estada como residente, houve um curso de introdução à agrofloresta. No final do primeiro dia de campo, Karin fez todo mundo sentar no pasto e foi fazendo uma espécie de chamada oral, convidando os alunos a contarem o que haviam aprendido no dia. Uma sala de aula ao ar livre.

Mulherada agrofloresteira

Cássia, companheira e sócia de Karin, diz que não houve a intenção de fazer um projeto estritamente feminino ou feminista. Mas acabou atraindo a mulherada. Quando eu estava lá, elas eram a maioria entre os residentes. “Imagino que as mulheres começaram a ouvir que há um lugar gerido por mulheres e começaram a vir”, sugere Cássia. “A gente fica muito contente que as mulheres estejam aqui e estejam mandando ver. É difícil achar um lugar que elas possam se sentir a vontade e estar numa posição bacana, que não tenham medo de pegar no facão, roçadeira, motosserra. É bom que as mulheres possam vir fazer o que elas gostam”.

Mas, afinal, a agrofloresta feminina é mesmo diferente? A agrofloresta costuma ter a cara do dono, dizem. “Tem uma coisa aqui que é, sim, um pouco diferente”, admite Cássia. Não necessariamente porque é feita por mulheres, mas porque reflete a personalidade dessas pessoas — que, por serem mulheres, trazem características específicas. “A Karin tinha uma preocupação quando começou os cursos de como ela ia passar a arte do sensível. Ela não queria ensinar tudo, ela queria que a pessoa desenvolvesse a sensibilidade de perceber o que a agrofloresta necessita”. Porque não há receita pronta. “A agrofloresta é uma coisa absolutamente filosófica. É um conjunto de relações flexíveis”, diz Cássia. “É tempo, local e pessoas, não dá pra ter um manual. E atende à busca existencial e humana das pessoas hoje em dia”. É muito mais que um método de agricultura sustentável. É um conceito. Que tem atraído gente da cidade e impulsionado o êxodo urbano.

Que, segundo Karin, já começou. “As pessoas estão percebendo que a vida da cidade é uma ilusão. A gente continua escravizado e preso em sistemas que são meio escravizantes. Trabalhar com agricultura sintrópica é uma certa liberação do ser humano. De produzir seu próprio alimento e de regenerar a terra. A agricultura sintrópica dá uma qualidade de vida e uma alimentação muito mais saudável. As pessoas ficam felizes. A gente volta pra floresta, nicho do ser humano, volta a ser disseminador de genética, volta a aprender a podar. É é uma outra qualidade de vida e é um prazer enorme”.

“A energia feminina dá uma fortalecida”, diz a residente Thaíza, que estudou ciências sociais e está explorando a vida na roça, interessada especialmente em bioconstrução. “É um cuidado diferente. Quando você está entre mulheres rola uma cumplicidade a mais. Pequenos cuidados. Sutilezas do dia a dia que fazem diferença”. E a mulherada lá é forte. Todo mundo pega na enxada, sabe usar o facão, roçadeira, motoserra. Todo mundo faz tudo, pinta parede, carrega tábua, constrói. “Não tem trabalho de homem e trabalho de mulher, tem o que precisa ser feito”, fala Thaíza. “A mulher tem uma natureza ancestral de trabalhar com a terra, de cultivo, de cuidar. A agrofloresta é um trabalho que precisa das duas forças, e meio que iguala os gêneros. Todas as mulheres agrofloresteiras têm força e disposição”, diz Déia, a bonita que conheci no Sítio Semente, que foi quem primeiro me falou do Epicentro Dalva, e que eu encontrei de novo morando lá (eu, que trabalho com sinais do universo, vi nesse reencontro um sinal claro de: tô no caminho certo).

Karin, a “patroa”, conclui: “O mais bonito de tudo é ver uma pessoa chegar, meio que flutuando, perdida, e sair daqui completamente focada, com aquele tesão da vida. Do mesmo jeito que é bom ver uma planta crescer, é muito bom ver uma pessoa achar seu lugar no mundo. Dá um prazer enorme”. Cooperação e abundância, as raízes da agricultura sintrópica, encontraram casa nessa mulher.

Grata <3

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6 comentários

  1. clélia rosilene bergo martins

    muito bom , estamos começando fazer em nossa região, gostaria de saber se voces tem algum video, vomos ter uma roda de conversa no dia 15 , que é o dia internacional da mulher do campo.

  2. clélia rosilene bergo martins

    gostei demais, estamos nesta luta aqui na região de Birigui sp , nos asentamentos e acampamentos da reforma agraria

  3. Oi! Conheço um exemplo incrível de mulher porreta agrofloresteira se quiser continuar suas pesquisas. Chama-se Patricia Vaz, mora no sul de Minas, próximo de São Lourenço, sabe muito e ensina muitos. Está aqui o face dela https://www.facebook.com/patricia.vazxll
    Um grande abraço e gratidão por trazer tao belo exemplo! Faz bem saber dessas coisas..

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