Endividada nunca mais

Houve uma vez na vida em que fiquei endividada. Ok, mais de uma vez. Mas teve uma delas em que fiquei beeeem endividada.

Mas foi justamente essa que finalmente me ensinou a lidar com dinheiro.

Foi assim:

Pedi demissão e fui para Santa Catarina construir a minha casa. Usei todo o dinheiro do fundo de garantia, mas não foi o suficiente. Parentes ajudaram e ainda assim não deu. Aí eu comecei a usar o dinheiro do banco, de diversas maneiras: empréstimos, cheque especial, cartão. Fiquei mega dura e, ainda por cima, não conseguia trabalho (era 2003 e ainda não havia muita internet a ser feita em Floripa, e nem empregos para jornalistas). Ou seja, não tinha fonte de entrada de dinheiro, só tinha o ralo. Vendi o carro – chorei de pena, era o meu verdinho de estimação – e não cobriu nem o buraco do dente da dívida.

A casa estava pronta. E eu fazia faculdade de agronomia na UFSC (a vida de estudante é ma-ra-vi-lho-sa – se tu tens alguém para te bancar). E não teve jeito: larguei a casa e a faculdade (e o marido, mas essa é outra história) e fui embora trabalhar.

Passei um ano em Brasília. Ganhava um salário razoável – mas que não era o suficiente para pagar o banco e bancar minha vida de recém separada, nas altas rodas, na ponte aérea BSB-CGH, na balada, na pishta! Eu tinha um limite de cheque especial de 5 mil reais… que usava todo, todinho, e muitas vezes nem chegava até o fim do mês.

Fui assim levando e pagando juros pro banco. Depois de um ano em Brasília, resolvi mudar para São Paulo (de novo) e fiquei uns meses sem salário. Aí, sim, o que já estava fora de controle degringolou totalmente. Parei de pagar o banco e fiquei com o “nome sujo”. Mas descobri uma associação de defesa do direito do consumidor, e com a ajuda deles entrei com um processo contra o banco. Fiquei alguns anos sem nenhum crédito na praça – e isso foi a melhor coisa que me aconteceu em termos de saúde financeira. Alguns meses mais tarde fiz um acordo e paguei apenas cerca de 20% da dívida original. E nunca mais:

  • Usei o limite do cheque especial – aliás, nunca mais tive limite de cheque especial.
  • Deixei de pagar 100% da fatura do cartão de crédito – uso cartão de crédito para tudo, por causa das milhas. Mas sempre pago a fatura inteira, na data certa.
  • Devi pra banco nenhum.

Pagar juros para o banco? Não sou trouxa.

Uma coisa que me ajudou muito foi um curso que fiz na Bovespa, de educação financeira. Eles me ensinaram a montar e usar com consistência  uma planilha para o controle dos gastos mensais. Você pode baixar um modelo da planilha aqui (ao acessar o link, procure o item Arquivo no menu e utilize a opção “Fazer download como”).

A planilha é bem simples e você pode adaptar de acordo com a sua vida. Basicamente você informa o que você ganha e lista tudo que gasta, separado de acordo com categorias. A mágica do Excel faz o resto.

planilha frente

Mas a planilha é apenas a ferramenta. O importante é você se comprometer consigo mesmo a, basicamente, uma coisa: não gastar mais do que ganha.

Dicas (muitas delas são senso comum, você já ouviu mil vezes, mas vou repetir porque você não estaria lendo até aqui se tivesse aplicado o que já ouviu mil vezes):

  • Se pague antes de tudo. Não espere o mês acabar pra ver se sobrou dinheiro para guardar. Com a planilha, fica fácil programar o quanto você vai guardar. Nem que seja 50 reais por mês: é melhor que nada. Então, assim que o salário entrar, ponha essa quantia na aplicação.
  • Com essa planilha, você vai poder decidir de onde tirar quando a coisa aperta. Não tem mágica: se faltar dinheiro, ou você consegue mais (faz um freela, vende alguma coisa) ou gasta menos. Em épocas de vacas magras você pode, por exemplo, cortar a academia. Ou perceber que precisa dividir a casa com alguém. Ou fazer faxina você mesmo.
  • Ah, mas e o dinheiro para a alegria e diversão? Não vou poder gastar nem um pouquinho? Vai. Planeje x reais para gastar com as coisas que você gosta. Vida sem prazer é uma chatice. Além do mais, ser muito rígido é a receita perfeita pra largar um foda-se e desistir de tudo. Ao fazer seu planejamento mensal você vai ver quanto pode gastar em coisinhas fofas. Depois de pagar as contas. E depois de guardar um pouco. Mas não deixe as coisas soltas: inclua na planilha essa quantia que você vai reservar para o prazer.
  • Se você gasta demais e não sabe aonde, recomendo utilizar o lado direito da planilha também:

planilha verso

Esse lado não veio do curso da Bovespa, fui eu que adicionei. Porque, para planejar a quantia mensal para alimentação e transporte, eu precisava saber quanto gastava com esses itens.

Todo dia você vai ali e anota quanto gastou (eu ainda especifico se foi com dinheiro ou no cartão de crédito). O objetivo é saber se, a medida que o mês passa, você está dentro do planejado. Por exemplo: digamos que eu possa gastar R$ 500 com “outros”. Quando o valor na linha da soma da coluna de “outros” chega em R$ 500, eu preencho com a cor vermelha as células dessa coluna correspondentes aos dias que faltam para o mês acabar. Ou seja: chega de comprar “outros”. Acabou, finito – volte no mês que vem.

Já ouviu dizer que “a verdade liberta”? Pois é. Estar sempre endividado e gastar além do que recebe é viver na ilusão. Tome a pílula vermelha e caia na real.

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8 comentários

  1. Que post necessário. Eu estou numa espiral de dívidas e preciso sair dela o mais rápido possível. Vou baixar as planilhas e começar agora mesmo. Alguma estratégia tem que dar certo!

    Muito obrigada pelo post 🙂

    • Que bom que foi útil pra ti! Tu já ouviu falar no Eduardo Amuri? Procura no Facebook. Ele tem ótimas dicas sobre esse assunto. bj!

  2. Tô precisando muuuito me organizar financeiramente. Vou tentar usar a planilha. :*

  3. Muito bom post, Ale! Ajuda muito a ter disciplina e poupar! Aproveitando o Bonde acho que vale conhecer um App chamado: Home Budget, ajuda super!!! E li também uma matéria bacana no Uol estes tempos falando de como se programar para poupar (aplicando em títulos, etc), vale um post seu sobre o tema!!! Bjs

  4. ah, que belo texto, que bela aula!

  5. Ale! Já tentei fazer essas planilhas pra facilitar o controle, mas nunca tive muito disciplina pra isso. O que me ajuda muito hoje é o app do NuBank. Como faço a maior parte de minhas compras no cartão deles, é muito fácil identificar com o que estou gastando muito. No app, o gráfico dos gastos dos últimos 15 dias e a busca pelo nome de serviços e locais, por exemplo, são ótimas fontes de informação. 🙂

    • quero ver. não tenho NuBank, mas vou pedir pro povo me mostrar aqui 😉
      beijos, querida! obrigada pela visita 😉
      agora falta uma presencial!

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