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Hip hop agrário: agricultura urbana como ativismo em Medellín

Agricultura urbana como retomada de territórios apropriados pela violência e resgate da memória de assassinados e desaparecidos. É isso que faz o projeto AgroArte na comuna 13, um dos bairros mais violentos da cidade de Medellín. O projeto de “hip hop agrário” envolve a comunidade em atividades culturais que são mediadas pela agricultura urbana. “Hip hop é das ruas, mas debaixo da rua tem terra, e a terra é o nosso território e nossa luta”, afirma o rapper AKA — que começou a plantar a partir do ensinamento de sete mulheres da comunidade. Já se vão quinze anos desde então: os “quadros verdes vivos” ocupam o grande muro do cemitério de San Javier, na entrada do bairro, e há cultivos em cerca de quinze quadras da comuna 13, nas calçadas e em terrenos vazios.

 

A Colômbia é marcada por uma história de guerras civis e disputa de terras. Por conta da ausência do estado, o país foi dominado pelo conflito entre grupos guerrilheiros e paramilitares. A comuna 13 — um bairro de cerca de 140 mil habitantes na zona leste de Medellín, por muitos anos sob o poder das guerrilhas e milícias urbanas — foi alvo de uma das maiores operações militares já vistas no país: a operação Orion, em 2002. O objetivo era retomar o comando do bairro, erradicando as milícias. Mas a Operação Orion foi comandada pelos paramilitares, que deram início a uma “limpa” na comunidade. O resultado foi o desaparecimento de centenas de pessoas, a maioria jovens. Ainda que isso seja um capítulo que a cidade tenta esquecer — com iniciativas de urbanização que beneficiam os moradores das comunas, localizadas em cima das montanhas que rodeiam Medellín, como o MetroCable — há quem garanta que a história ainda não acabou. “Os tratados de paz em curso na Colômbia não chegam na comuna 13”, diz AKA. Pelas contas do rapper, só em 2017 já são 348 homicídios na cidade.

O cemitério de San Javier, no início da comuna 13, é cheio de grafites e tem o muro coberto por canteiros feitos de garrafas PET e embalagens plásticas. Cada um deles abriga uma planta e leva o nome de uma pessoa da comunidade que foi assassinada ou está desaparecida — desplazada, como eles dizem lá. Na parte alta do bairro está a Escombrera, uma ferida ainda aberta na história do país. Neste lixão foram jogados os corpos das vítimas da Operação Orion. Na Colômbia é proibido cremar corpos de vítimas de assassinatos. Então, muitos dos enterrados no cemitério de San Javier são jovens da comunidade. “O cemitério fala da história de um território”, diz AKA. O local também abriga o viveiro do projeto AgroArte. A afirmação da vida nascente, e a memória dos mortos e desaparecidos gravada no muro de um cemitério marca a estratégia de reapropriação de territórios que propõe o AgroArte. Pois isso é exatamente o que faz a prática de plantar. “Somos todos desterrados na América Latina. Plantar nos conecta com lutas históricas. O AgroArte faz pedagogia da terra, e a terra está nas mãos de quem controla o país”, diz AKA.

 

Segundo o rapper, os conflitos na Colômbia sempre estiveram ligados à posse da terra. “Cinco famílias são donas do país todo”, estima. Os paramilitares, desde o início de sua atuação, se ocuparam da desapropriação de terras de camponeses (se você for a Medellín não deixe de conhecer o Museu da Memória. E leve um lenço. É impossível não se emocionar com a triste história dos colombianos). Há cinco anos, AKA também foi vítima de desplazamento. Até hoje não pode voltar à parte alta do bairro. Em 2017, sete famílias foram desplazadas na comuna 13, segundo ele.

Além da apropriação de territórios, o foco na agricultura urbana do projeto AgroArte também promove a construção do tecido social, propondo ações comunitárias, e conta com o trabalho como ritual. “Plantar é processo. No plantar entendemos que somos todos iguais. Plantar lembra a pessoa do que ela cultivava antes de ser desplazada”. A comuna 13 era uma área semi-rural, em que até hoje habitam pessoas que vieram do campo. “A Colômbia foi construída por camponeses. O Estado faz com que as pessoas vão para a cidade. E a memória do campo se perde”.

“O cimento oculta, cobre, encobre. Mas nós somos plantas callejeras (de rua): resistimos ao cimento”. E seguimos plantando e escrevendo uma outra história da América Latina.

 

Saiba mais:

‘Depósito de corpos’ é lembrança amarga em cidade ‘renascida’ na Colômbia

Comuna 13: How Colombia’s Most Notorious Neighbourhood Reinvented Itself

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