Menos trabalho, mais colaboração

Estava lá eu no meu evento preferido sobre a vida em geral, o SXSW. Desta vez (2016), encontrando um monte de designers, planners, diretores, criativos de agências brasileiras. Um monte de gente super talentosa, altamente capaz – gente genial, até.

Me veio uma coisa na mente: essa gente, pensando junta, podia resolver muitos dos grandes, principais, mais doídos problemas do mundo.

Só que essa gente, a gente, está muito ocupada trabalhando. Em coisas que não necessariamente fazem sentido – nem pra mim e nem pro mundo.

Por que a gente trabalha tanto? Para ganhar dinheiro. Pra quê? Pra sustentar a família. Basicamente é isso. Em linhas gerais.

Mas quanto dinheiro é o suficiente? A gente trabalha, trabalha, um monte, continuamente – o dinheiro nunca basta. A gente tá todo trabalhado na teoria da escassez: a ideia de que não tem pra todos. Não tem recursos, dinheiro, comida, carro do ano, apartamento na Vila Madalena – pra todos. Então eu tenho que garantir o meu e o da minha família. Para muitos anos. Preciso garantir meu sustento no mundo – por isso eu trabalho tanto.

Aí vira eu contra eles. Se tem tão pouco no mundo, e eu preciso garantir o meu, eu tô toda trabalhada na competição. Por empregos, por oportunidades, por jobs, por campanhas, por concorrências, por comida, pelo melhor lugar no restaurante, pelo primeiro lugar na fila, por arrancar antes no semáforo.

Não tem espaço para a colaboração. Porque tá todo mundo ocupado demais garantindo o seu. E a impressão geral é de que só tem um: que vai ser ou meu ou dele. Tem que ser meu.

E os problemas do mundo lá. Ficando maiores. E a gente aqui. Fazendo comercial de Doriana pra encher o rrrrrrabo de dinheiro.

E aí volta e meia surge nas conversas do escritório o tema do propósito no trabalho. De como ter um trabalho com propósito. Esses dias alguém disse que tem muita gente no mundo – nem todo mundo vai ter, nunca, um trabalho com propósito. Que vai ter, sim, (muita) gente trabalhando em coisas sem sentido, pra sempre. E que então pode esquecer de procurar um trabalho com sentido e propósito – cai na real e faz o wireframezinho bonitinho aí.

Pois eu acho que não necessariamente. Que esse é um pensamento reacionário, desmobilizador (como disse Luiza Erundina, “a desesperança e o desalento nos imobilizam”).

Tem muuuuuita coisa pra fazer no mundo. Muita coisa necessária, útil, urgente, fundamental. O mundo precisa do nosso olhar, atenção, gentileza, força de trabalho. Tem gente que precisa ser cuidada, bicho, floresta, árvore, rio. Precisa de muita mão pra cultivar, espalhar, colaborar. Só que as coisas que são mais necessárias às vezes são as menos remuneradas.

 A gente precisa colaborar mais uns com os outros em prol do planeta em que vivemos. E trabalhar menos horas para a “garantia” do sustento. Do jeito que o “mercado” é – altamente competitivo, muitas horas de trabalho -, até parece que a gente é homem das cavernas que precisa todo dia caçar sua comida ou a família não come (atenção: estou falando de gente com educação superior, que trabalha em corporações, com altos cargos e/ou salários).

Pessoa que trabalha em criatividade/design/etc: tu já tem dinheiro suficiente, aposto.

E coisas. Na verdade, todo mundo tem coisas demais. Se a gente compartilhasse mais, precisaríamos de menos dinheiro (e poderíamos, rá, trabalhar menos). Por exemplo: eu não quero uma furadeira. Eu quero um furo na parede. Pra que eu preciso comprar a furadeira? Se meus dois vizinhos têm? Se eu não precisar comprar, mas puder pegar emprestado, é menos um dinheiro que tenho que gastar, o que é igual a menos horas que tenho que trabalhar. E digamos que eu tenha uma batedeira. Que o vizinho vai usar uma vez por ano, porque ele não é muito confeiteiro, mas resolveu fazer um bolo de presente surpresa pra vó dele. Pra que ele vai comprar uma batedeira, se eu tenho e posso emprestar? (o app Tem açúcar media esses empréstimos).

E assim vai. Com carro, casa (quarto sobrando?), máquina de costura, livro, vestido de festa, qualquer coisa que a gente não usa com frequência e, logo, não precisa todos os dias.

E aí, olha essa ideia: digamos que a gente precise de menos dinheiro. E aí dê pra trabalhar menos horas por dia no emprego. E então a gente use algumas horas desse dia para se reunir com os outros que também estão trabalhando menos horas no emprego oficial para, todo mundo junto, trabalhar em colaboração, sendo os gênios que a gente é na agência, em Cannes, no SXSW, na concorrência, no workshop do Google – para resolver os problemas do mundo?

Hein, hein?

E, sim: sempre vai ter gente que trabalha em uma coisa sem sentido – pra ela e pro mundo. Tem gente que não se importa com isso e que tá contente. E ISSO BASTA! Mas, se TU não está contente, não se deixe enganar pelas ideias reacionárias de que o mundo é assim e pronto.

(Tem também gente que não está muito contente com a falta de sentido, mas está contente com o dinheiro – e que daí pega esse dinheiro e seu pouco tempo livre e vai fazer as coisas que precisam ser feitas. As urgente. As importantes: plantar árvores, alimentar quem não tem comida, construir casa pra quem não tem casa, patrocinar campanhas de castração de bichos de rua. Ou seja, tem vários jeitos de colaborar. Assim como tem MUITA coisa pra fazer.)

PS: o texto da foto que ilustra o post é de uma matéria da revista Superinteressante que fala sobre agroflorestas. “Ele” que o texto cita é Ernst Götsch, o cara que organizou o conceito de agricultura sintrópica – que prova que, na cooperação, tem mais pra todo mundo.

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