Mergulhando com os peixes em Fernando de Noronha

Fui mergulhar com os peixinhos e tive momentos de intensa conexão com o planeta, com a vida e com o todo – e com os corais e os peixes e também as criaturas que estavam lá e eu nem vi. Eu sou uma mergulhadora super inexperiente. Do tipo que pega o regulador reserva ao invés do principal e que esquece de inflar o colete antes de cair na água. Dá pra imaginar que, morando em São Paulo, eu não mergulho com muita frequência. Dessa vez, fazia 3 anos que não mergulhava. Tive que avisar o instrutor de que eu não lembrava de mais nada. Porém, uma vez dentro do mar, me sinto muito muito à vontade. Tô lá na casa dos peixes e acho que pertenço. Na minha vaidade e presunção, fico achando que os bichos (todos: gatos, cachorros, vacas, arraias, tubarões, atuns) me tratam diferente porque sabem que eu saquei o plano secreto deles. E porque eu não como eles. “Ah, aquela ali tá ligada no movimento” – pensariam os bichos. E eu olhando no olho do peixe, toda emocionada, juraaaando que ele vê minha alma como eu acho que vejo a dele.

Aliás, sempre que mergulho, saio da água pensando como é que alguém que desce lá e nada com os peixes pode depois subir e come-los. Não entra na minha cabeça: é uma das instâncias em que me falta alteridade, empatia, tolerância. Porque é que nem fazer carinho num gato – e depois quebrar o pescoço do gato e comer o gato (na verdade, talvez não: a maioria dos humanos, se tivesse que matar um bicho para comer, não o faria. O trabalho sujo tem que ser terceirizado para a manutenção do sistema).

Oooooolha a Alessandra atrás da arraia
Oooooolha a Alessandra atrás da arraia

Antes do mergulho assisti a uma palestra muito instrutiva, em que a moça, uma oceanógrafa, falava sobre como o ecossistema da ilha é frágil, os corais são frágeis, o equilíbrio é frágil. E que por isso tem um monte de regras, para controlar o impacto do humano sobre o ecossistema. E eu saí da palestra achando que a gente não tinha sequer que pisar nessa ilha, muito menos entrar de barco (motor, barulho, diesel) no mar, seguir golfinho, caminhar sobre rochas. E que devia ser proibido descer lá dentro do mar pra perseguir arraia e perturbar lagosta que dorme embaixo da rocha (aliás, me dá vontade de avisar todas as lagostas, atuns etc: vem pro Paranamar que aqui pelo menos eles não podem te pescar!). E a gente não apenas vai lá como bate o cilindro no coral, arrasta nadadeira no fundo, apoia a mão na alga. Moça oceanógrafa, as regas são muito legais, mas vocês estão ligados que as centenas de pessoas que mergulham todos os dias nos pontos da ilha não são assim tão cuidadosas, né?

O humano é uma praga, uma desgraça para o mundo natural. Os mergulhadores inclusive (e o que dizer da covardia da pesca submarina? O cara entra na casa pra arpoar seus habitantes. É o fim.).

Esse bicho simpático é uma mabuia
Esse bicho simpático é uma mabuia

A oceanógrafa falava o tempo inteiro sobre os “organismos”. Os organismos pra ela são os animais, as espécies, os seres. Gato=organismo, mabuia=organismo, peixe=organismo, coral=organismo. Acho que, pra quem estudou oceanografia, é tudo organismo mesmo. Depois pensei melhor e achei que organismo até não é tão ruim, afinal significa uma coisa viva, e não um objeto. É que eu tô longe de chamar bicho de “organismo” – mas eu, né, sou dessas loucas que querem salvar os gatinhos. Que por sinal são uma praga em Noronha. E a quem a oceanógrafa se referia com uma espécie de raiva, como se a presença dos milhares de gatos na ilha fosse escolha e culpa deles, e como se eles pudessem decidir partir a qualquer momento. Os gatos comem mabuias, um bicho endêmico de Noronha, e atacam ninhos de pássaros. Bad, bad cat. Realmente a superpopulação de gatos no mundo é um problema sério – ainda mais dentro de uma unidade de conservação. Mas os gatos também comem outros “organismos exóticos”, pra usar a linguagem da moça, que não fazem parte do ecossistema original – como os ratos. Então tem uma equipe realizando estudos pra ver o que fazer com os gatos. Desde a primeira vez que fui para Noronha, há 5 anos, os gatos só procriaram e multiplicaram.

Lindo exemplar de Gatus Noronhensis esperando cair alguma comida da mesa do restaurante
Lindo exemplar de Gatus Noronhensis esperando cair alguma comida da mesa do restaurante

E os corais, coitados. Já dizimamos um quinto dos corais do mundo, e os corais são o berçário de algas e pequenos peixes, que alimentam os organismos maiores, que vêm a ser os peixes que alimentam os humanos. Portanto, sem coral, sem comida para humanos. Então, gente, nada de pisar em corais, botar a mão, encostar a nadadeira. Porque precisamos dos corais para continuar comendo peixe!

Enxerga o problema? A natureza só é importante em relação ao humano. É a raiz da dificuldade de perceber que os animais são indivíduos com validade própria, e não estão no mundo para servir à espécie “superior” – isto é, nós.

Mas, enfim. Eu tenho essa teoria sobre o “plano secreto dos bichos”. De que é tudo uma combinação entre eles pra ensinar a gente. Minha teoria era sobre os bichos domésticos e de “consumo”. Mas talvez a relação estabelecida entre humanos turistas e os “organismos” que habitam essa ilha faça parte também do plano secreto, do jogo, do teatro que é estar vivo nesse planeta. Que os “organismos” estão preparados pra essa merda toda, porque tudo isso faz parte da combinação cósmica. Deixa esse cara tocar em mim (diz o coral) e olhar no meu olho (diz o peixe) – quem sabe ele se toca. Que foi o que aconteceu comigo: virei vegana depois de um encontro com um atum aprisionado num aquário.

Olha! Não é a Alessandra se metendo na toca dos peixes?
Olha! Não é a Alessandra se metendo na toca dos peixes?

Como disseram os dois vídeos catastróficos e dramáticos que a oceanógrafa passou na palestra, a natureza não precisa do homem (e o “mundo natural” existe há milhões de anos e vai continuar existindo, apesar de). É o homem que precisa da natureza. Precisa – e não comanda. A humanidade tá fodendo com o mundo natural – e nem venha me dizer que somos parte do mundo natural, o homem há tempos deixou de ser natureza selvagem -, mas o mundo natural é um negócio muito mais poderoso que o homem. E parece que pode se livrar de nós assim como um cachorro que com uma sacudida se livra das pulgas.

No final do mergulho, voltando para o porto, o barco encontra um grupo de golfinhos. Coisas mais fofas, me botaram no rosto um sorriso de doer o maxilar. Mas, por motivos de ter assistido a tal palestra, eu sei que esses golfinhos que acompanham os barcos são os machos mais experientes, e estão ali com a função de defender o grupo – e passar a perna nas pessoas. Enquanto a gente tá ali se maravilhando com os caras pulando, a maior parte do grupo, as fêmeas e filhotes, estão indo pro lado oposto. É uma estratégia de proteção. Os barcos estressam os golfinhos que vêm para a ilha procriar, amamentar, se alimentar, dormir.

Mas o mundo é movido por dinheiro. Vai continuar vindo gente demais pra ilha. Vai continuar tendo sacolinha de plástico no mercado. Vai continuar barco entrando no berçário dos golfinhos. Imagina se aqueles homens velhos brancos engravatados que governam o estado – que governam o país, o mundo – vão abrir mão da receita que vem de Fernando de Noronha.

Como diz o ditado indígena:

Somente quando for cortada a última árvore, poluído o último rio, pescado o último peixe, é que o homem vai perceber que não pode comer dinheiro.

E parabéns aos biólogos, ambientalistas, veterinários, oceanógrafos que lá trabalham e lutam contra a destruição deste que deve ser um dos mais bonitos parques nacionais do mundo.

PS: as palestras do Tamar são a pílula vermelha. Não assiste palestra se tu quiser continuar no bonito mundo da ilusão, onde Noronha é um playground para humanos bonzinhos e os bichos tem cara e índole de personagem da Disneyworld.

Whaaaat?!
Whaaaat?!
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