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O que é agricultura sintrópica

Em abril participei de um curso de Sistemas Agroflorestais no Sítio Semente, no Lago Oeste, em Brasília. O Sítio Semente é de propriedade de Juã Pereira, professor do curso e discípulo direto de Ernst Gotsch, sistematizador do termo Agricultura Sintrópica. Juã produz nesta terra desde 2005. Atualmente oferece mais de 40 produtos, entre frutas, verduras, raízes, ervas. São 700 kg de comida por semana, vendidos em oito feiras orgânicas em Brasília. No Sítio Semente é possível observar canteiros agroflorestais de diferentes idades e, consequentemente, tamanhos. Foi uma experiência muito enriquecedora: aprendi um monte de coisas (inclusive a usar o facão para o manejo de bananeiras), percebi que o dia a dia da roça é bem extenuante pros urbanos fraquinhos (e decidi ficar mais forte), conheci muita gente boa; fiz fotos incríveis do lugar (lindo), das pessoas (fofas), das plantas (plenas da energia da fotossíntese) e dos bichos (maravilhosos). Veja a galeria de fotos aqui, e entenda, abaixo, o que é essa tal de Agricultura Sintrópica que está fazendo urbano virar agricultor.

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O termo Agricultura Sintrópica foi cunhado por Ernst Gotsch, agricultor e pesquisador suíço que se estabeleceu em uma fazenda no sul da Bahia no começo da década de 1980, vindo da Costa Rica – onde trabalhou ensinando agricultura sustentável para uma rede de cooperativas agrícolas. Na Bahia, Ernst ocupou uma terra degradada e começou a plantar de acordo com as técnicas que vinha pesquisando, e assim sistematizou o que chamou de Agricultura Sintrópica.

A Agricultura Sintrópica é um sistema de uso da terra que  “associa cultivos agrícolas com florestais, recupera os recursos ao invés de explorá-los e incorpora conceitos ecológicos ao manejo de agroecossistemas” (site Agenda Gotsch). Na prática, é plantar hortaliças, verduras, frutas, ervas, junto a árvores e espécies arbustivas, imitando a dinâmica sucessional e mimetizando a regeneração natural de florestas.

Princípios básicos:

  • Fortalecer o sistema para aumentar a biodiversidade e diminuir a necessidade de insumos externos. A floresta só necessita do que produz.
  • Policultivo: um canteiro nunca terá apenas uma espécie, como acontece na agricultura convencional. Cada canteiro é composto por um consórcio de espécies.
  • Compor o consórcio pensando na sucessão: para a combinação de espécies é analisado o tamanho e o tempo que cada uma necessita para produzir. Assim, teremos no mesmo canteiro culturas de ciclos curtos acompanhadas por culturas de ciclo mais e mais longo.
  • Todas as espécies do consórcio são plantadas ao mesmo tempo.
  • O solo nunca está exposto. Para a cobertura, utiliza-se palha, restos de poda, madeira. Como na floresta, onde o solo está sempre coberto pelas folhas e galhos que caem naturalmente das árvores.
  • Essa biomassa de cobertura é decomposta naturalmente e “vira” solo.
  • Alto manejo (principalmente poda), para acelerar a regeneração do sistema e produção de alimentos.

A Agricultura Sintrópica proposta por Ernst Gotsch se baseia na abundância dos sistemas naturais. Felipe Caltabiano, agricultor de Planaltina (DF), explica: ”Quando a gente entra no fluxo natural das coisas a gente cria uma dinâmica de enriquecimento muito forte. Enriquecimento do solo, melhorias na microbiota do solo (microorganismos, bacterias e fungos). Você cria ambientes mais resilientes, protegidos do vento; a umidade melhora, o ambiente fica melhor para todos os seres que habitam”. Na Agricultura Sintrópica (também chamada de Sistemas Agroflorestais, ou SAF) a força motriz não é simplesmente a produção, afirma Felipe, mas a otimização e regeneração de sistemas já existentes através do manejo.

Como é a Agricultura Sintrópica na prática

Sabe aqueles longos canteiros com solo exposto e fileiras de alfaces tão retinhas que parecem medidas com régua? Pois pode esquecer. A AS é bem diferente. Os canteiros de sistemas agroflorestais são mistos, o solo nunca estará exposto, e canteiros mais antigos terão plantas de diversos tamanhos.

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Felipe Caltabiano: “Quando a gente entra no fluxo natural das coisas a gente cria uma dinâmica de enriquecimento muito forte”.

Podemos ter, por exemplo, um canteiro plantado com eucalipto, banana, laranja, mandioca, brócolis, alface, agrião. Tudo é plantado ao mesmo tempo. As espécies escolhidas para o consórcio devem obedecer a uma dinâmica de tempo de produção em relação ao tamanho alcançado. Neste exemplo, quando o brócolis e a mandioca começariam a fazer sombra para as plantas mais baixas (alface, agrião), estas já vão ter sido colhidas; em seguida se dará a colheita da mandioca e banana; a bananeira e o eucalipto são manejados com podas para que não sombreiem o sistema antes do tempo desejado, e o material das podas servirá como biomassa para a composição do solo. “Podemos plantar desde rabanete, que tem colheita de 20 dias, 25 dias, até por exemplo uma castanheira, que vai ficar pronta para colheita com 15 anos de idade”, diz Felipe.

Potencial econômico

Além de todas as vantagens ambientais da AS, o potencial econômico também é bastante interessante, já que o agricultor tem melhor aproveitamento tanto da área quanto do trabalho. “Por unidade de área o retorno de produção é muito superior a uma produção baseada na monocultura”, afirma Felipe. Isso se dá pela otimização do espaço (onde havia apenas uma cultura agora há duas, três, quatro) e melhor aproveitamento dos insumos externos iniciais – o adubo que servia para o alface agora vai servir também para a rúcula, a mandioca, o tomate.

“Se eu tenho um canteiro de alface, não gasto mais adubo se acrescentar morango”, explica Felipe. Assim, a AS não deixa buraco vazio. “[no sistema convencional] O buraquinho que fica quando eu planto só alface a gente ocupa com rúcula, tomate, mandioca. E é como se essas culturas extras não custassem nada, porque eu já preparei meu canteiro para o alface. E enfiei minha mandioca lá de graça”. Há economia também de água, porque a mesma água que irrigava o alface agora molha todo mundo.

A ideia é que as primeiras culturas a serem colhidas paguem o investimento feito na implementação do canteiro. “Além disso, a variedade de espécies enraíza o solo de forma mais complexa, o que ajuda a manter o adubo lá”. Na medida em que o sistema vai ficando mais maduro, diminui a necessidade de insumos externos. O sistema começa a “rodar” sozinho – como uma floresta. Aí é hora das espécies de ciclo mais longo, como as frutíferas, o café. Nesse ponto, o agricultor pode dimensionar o grau de manejo: quanto menor, mais natural (e lenta) será a evolução do sistema; manejo intensivo resulta em uma evolução mais rápida.

E a proximidade entre as culturas dentro de um canteiro não vai afetar a produção? Aí entra o conhecimento do agricultor sobre as plantas e a ciência dos estratos, ou tamanhos. Como as espécies plantadas em consórcio são de tamanhos diferentes, ocupam áreas distintas ao longo do tempo do canteiro. Diz-se que o insumo mais importante para a prática da AS é o conhecimento. “Precisa conhecer as plantas, as espécies, a dinâmica florestal. Muitas vezes esse conhecimento o agricultor ja tem, está dormente nele. Ele já viu isso na floresta nativa”. Mas o pontapé inicial para uma produção agroflorestal é botar o conhecimento na prática. Diz o dito popular que a melhor coisa que você pode fazer é uma agrofloresta bem feita. A segunda melhor coisa é uma agrofloresta mal feita 😉

“Na natureza não existe concorrência e competição fria. Todas as relações são baseadas na cooperação e no amor incondicional, sempre orientadas para a realização de uma função”. – Ernst Gotsch

Por que sintropia

A Terra é um sistema que recebe energia do sol e tem o potencial de materializar essa energia. Os sistemas naturais evoluem “no sentido de estruturas de organização cada vez mais complexas […] os participantes agem de forma sinergética e, por meio de seu metabolismo, realizam a tarefa de otimizar os processos de vida, aumentando a organização e a complexidade do sistema como um todo” (site Agenda Gotsch).

Nos processos sintrópicos não há perda de energia, pelo contrario. “A AS promove um aumento da quantidade e qualidade da vida no planeta”, fala Felipe. Os métodos de cultivo da AS promovem o surgimento de insetos, bactérias, fungos e todo o tipo de vida no solo. Esse aumento da biodiversidade regenera o solo e atrai ainda mais vida, na forma de outros animais e plantas que vêm para participar do sistema. Não há o que se convencionou chamar de “pragas”, porque todos os organismos têm uma função. A AS é ao mesmo tempo produção de alimento e recuperação de áreas degradadas. “Você pega um solo estéril, que não tem nada, e em questão de 3, 4, 5 meses tá tudo verde de novo, o solo tá pulsando com vida, as árvores crescendo e a umidade do ar está elevada. Quando você expande isso para área maiores, tem impacto no regime hídrico local”, diz Felipe. Nas terras de Gotsch, por exemplo, a agricultura sintrópica promoveu a regeneração de 14 nascentes que haviam secado por conta dos métodos convencionais de cultivo – que extraem toda a riqueza do solo sem repôr, em uma espécie de “mineração” da terra.

A Agricultura Sintrópica é um método ecológico de cultivo – ao contrário da monocultura convencional, que resulta em profundo desequilíbrio do meio ambiente. “Há séculos estamos vendo a destruição causada pelos humanos, e nada deu certo. Os métodos convencionais não dão certo, não funcionam, é inviável. Não tem como pagar a conta. Mas a agrofloresta é um sistema que paga a própria conta”, conclui Felipe.

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Galeria de fotos

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10 comentários

  1. Andreah Menezes

    Bem bacana e esclarecedora a matéria! Obrigada

  2. bacana demais

  3. Augusto

    Parabéns pela matéria, ótimo texto! Eu vinha procurando informações sobre a Agricultura sintrópica e o texto me esclareceu bastante. Obrigado 🙂

  4. Samantha

    Oi Ale
    Que baita saudade que me deu ao rever as fotos dessa experiência incrível! Seu texto está impecável, e com certeza transmite todo o aprendizado que absorvemos durante esses dias. Lindo o site, já favoritei!
    Bj

  5. Maravilha!! Este é meu trabalho no Ecoparque da Mata na Bahia. Parabéns por seu trabalho e divulgação!

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