Os gatos

Passeávamos eu e o cachorro, eu toda alegre, madame do bairro – tinha acabado de comprar um espumante na loja de vinhos e ia, ao chegar em casa, sentar no quintal e bebê-lo, pernas para cima, realizada e vitoriosa, o dia ganho.

Foi quando vi um gato. Branco, manchas pretas, pequeno. Parecia ser adolescente. Estava perigosamente no meio da rua, quando abria o sinal escondia-se debaixo das rodas dos carros estacionados. Voltei para a quadra da loja de vinhos, comprei um Whiskas sachê no mercadinho da frente e catei na rua uma caixa de papelão. Se ele ainda não tiver morrido quando eu voltar, vou pegar esse gato.

Ele estava ali e vivo. Eu amarrei o cachorro num portão, deixei o espumante pra ele cuidar – o cachorro, baita companheirão -, e derramei o Whiskas dentro da caixa. Chamei o gato, ele veio. Era dócil e estava assustado. Sentiu o cheiro da comida e se jogou. Percebi que seria fácil pegá-lo. Dois guris skatistas viram a cena, vieram saber o que estava acontecendo, e se ofereceram para me ajudar. Subimos as três quadras até em casa – os guris levando o espumante, o cachorro e os skates, eu levando o gato pelo cangote com as unhas dele grudadas no meu antebraço.

O gato era velho e tinha olhos azuis. Chamei de Sinatra e cuidei dele. Levei no vet, dei banho, remédio de pulga. Em poucos dias começou a pedir carinho e a engordar. Fez vários exames e descobrimos que tinha doença renal. Começou a fazer acupuntura e soro. Morava na edícula.

Os outros gatos: eles não gostaram.

Júpiter passa o dia no segundo andar, só desce de vez em quando. A primeira gata da casa, a rainha, a dona de todas as coisas. Está sempre em cima da cama, ou dentro do guarda-roupa, deitada sobre as minhas roupas. À noite, Júpiter se debruça em mim, os patas de trás na cama, as da frente na minha barriga. Penso sempre em uma moça debruçada na janela. Eu sou o umbral através do qual Júpiter vê a vida.

Ela gosta de mamar na minha camiseta. Gosta que eu segure as pontas da orelhas dela, aquela cartilagem bem fininha, e esfregue entre meus dedos. Fecha os olhos quando faço isso.

gatos

Vênus é madame bonita, lânguida, peluda e blasé. Rosna quando eu faço alguma coisa que ela não gosta. Eu gosto de tosá-la no verão: é muito quente para aquele pelo todo. Então ela fica parecida com um ursinho. Vênus dorme em uma caixa forrada com um cobertor. Ou na cama comigo e Júpiter.

Guri faz barulhinhos quando pula, quando desce. Gosta que eu arranhe a barriga dele enquanto ele briga com o tapete e mia furioso. Gosta que eu faça isso enquanto ele rola pela escada arranhando o cascalho. Gosta que eu coce o queixo dele e se encosta em mim, o rabo tremendo, quando quer carinho. É o maior gato da casa.

Nenhum dos três desceu para o quintal quando Sinatra estava lá.

Ele estava bem, melhorando com o soro, a comida, a atenção. Só que eu fui passar um fim de semana fora, e acho que então ele desistiu. A vet mandou internar. Eu levei ele no colo, a pé, dentro de uma sacola. Pedi para o hospital por favor deixá-lo morrer, se ele morresse.

No outro dia me chamaram. Ele tinha tido uma parada respiratória e tinha sido entubado.

Pô, eu pedi pra deixar o bicho morrer.

Fui lá e não tinha mais nada para fazer.

Eu disse umas palavras doces pra ele, segurei as patinhas. Tiraram o tubo e ele morreu ali na minha frente. Os gatos voltaram a frequentar o quintal.

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