permacultura na guatemala

Permacultura e segurança alimentar na Guatemala

Quando os espanhóis chegaram na Guatemala, os povos maia cultivavam e cultuavam o maíz (milho) e o amaranto. Segundo contam, o amaranto era uma planta poderosa, um alimento completo que garantia sustento, força e capacidade. Os espanhóis logo trataram de marginalizar o amaranto, associando ao “diabo” os vários rituais sagrados em torno da potente planta. “Foi uma estratégia para tirar o sustento dos povos, o que realmente os mantinha – e deixar só o que eles podiam usar como mão de obra”, conta Roni Lac, diretor do IMAP – Instituto Mesoamericano de Permacultura. O resultado é que, no século XXI, a maior parte da população da Guatemala não apenas não come, mas sequer sabe o que é o amaranto. Hoje em dia, aponta Roni, “quase não se encontra comida nativa” nas comunidades da região do Lago Atitlán, em cuja margem sul está o IMAP.

Para intervir neste contexto histórico, o IMAP tem entre seus programas uma iniciativa de soberania alimentar chamada “Nutrição nativa”. O projeto, bancado pela Embaixada do Japão na Guatemala, e intermediado pelo BID, tem quatro componentes:

  • A promoção das plantas nativas, capacitando pequenos agricultores para produzi-las e fazendo o acompanhamento;
  • A compra dessa produção e o processamento, com a finalidade de agregar valor;
  • A disponibilização destes alimentos a preços acessíveis para o mercado local;
  • O ensino das propriedades nutricionais dessas plantas e como utilizá-las na preparação de alimentos.
Farinha de amaranto produzida pelo IMAP para ser vendida a preços justos no comércio local

Assim, o IMAP trabalha com pequenos agricultores e com famílias da região de San Lucas Toliman, que tem uma população de cerca de 40 mil pessoas. O projeto está focado em amaranto e chia, e produção já está sendo comprada e processada pelo IMAP. Os produtos em breve estarão à venda em lojas da região. “Há uma demanda internacional por esse produtos, mas essas pessoas não precisam, quem precisa são as pessoas locais”, diz Roni.

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As populações indígenas e de baixa renda da região de San Lucas – a maioria pertencente ao povo maia Kaqchikel – sofrem com o que se chama de “dupla carga nutricional”: há um grande índice de mães obesas com bebês desnutridos. Isso acontece pois não há alimentos nutritivos e frescos facilmente disponíveis. “Se você vai a um mercado na periferia de San Lucas Toliman, por exemplo, só encontra produtos industrializados”, conta Dulce Valle, a nutricionista do IMAP responsável pelo projeto. Os pequenos agricultores plantam majoritariamente café, vendido a preços muito baixos para ser beneficiado e então exportado. E a maioria das – poucas – famílias que planta hortaliças e frutas prefere vender, para então comprar comida industrializada.

permacultura na guatemala
Dulce e eu no dia do trabalho de campo com as mulheres da comunidade

“As pessoas querem consumir Coca-Cola e salgadinhos por status. Significa que têm dinheiro. Elas vêem na TV e querem comprar”, diz Dulce. O trabalho de plantar e colher não é valorizado, assim como a comida local. O fast food na versão guatemalteca – uma rede de frango frito – está chegando aos rincões mais remotos. “A cultura local é discriminada pela cultura dominante. Nosso trabalho não é tanto agronômico: é necessária uma revalidação cultural. Não precisamos ensinar como plantar, mas sim trabalhar na valorização do que eles têm”, diz Roni.

O projeto trabalha com 150 agricultores e 600 mulheres da região, ensinando-as sobre nutrição e preparação de alimentos saudáveis e apoiando a criação de hortas comunitárias. O IMAP participa da implementação das hortas, fornece as sementes e faz o acompanhamento.

 

Permacultura com envolvimento social 

Todo o trabalho do IMAP é baseado no compartilhamento do conhecimento, das ferramentas e dos resultados da permacultura com as populações locais. Na verdade, essa já era a intenção de Roni mesmo antes de ter encontrado a permacultura. Filho de agricultores do povo maia Kaqchikel, cresceu com os avós na região do Lago Atitlán. Teve a oportunidade de ir para a universidade e estudou antropologia. Desde o inicio tinha como meta a aplicação do conhecimento na prática, e não ficar apenas no âmbito da academia. “Eu queria trabalhar com o resgate do conhecimento tradicional, ancestral, e botar em pratica no contexto atual”.

Em sua pesquisa sobre métodos sustentáveis de agricultura, conheceu a permacultura, e teve apoio da PAL – uma rede de permacultura na America Latina que ofereceu capacitação e apoio. “A permacultura nos ajuda a explicar e demonstrar cientificamente os métodos para as pessoas locais, e nos ajuda a explicar sobre nossa cultura para as pessoas de fora”. Segundo Roni, muitas técnicas permaculturais estão baseadas em sistemas utilizados pelos povos maias – como as chinampas e a milpa (ou “las tres hermanas”, o consórcio de milho, feijão e abóbora). “No livro Permaculture One, Bill Mollison mostra como exemplo duas hortas familiares, uma de Honduras e uma da Guatemala. A permacultura está baseada em sistemas tradicionais de todos os povos originais do mundo”.

O primeiro projeto permacultural do IMAP é a comunidade na qual o instituto está localizado, Patchitulul. “Vimos que havia uma grande oportunidade para aplicar a permacultura na prática aqui. Era uma comunidade pequena e marginalizada. As casas eram precárias, não havia luz, água ou sistema sanitário; não existia trabalho, a renda era baixa, muita gente não tinha sequer registro de nascimento”. Roni comprou a área na margem sul do lago Atitlán, começou a arrendar terra para a população local e a capacitar os pequenos agricultores, que se tornaram produtores de sementes que o IMAP compra para alimentar outro de seus programas, o de biodiversidade – que tem o objetivo de resgatar, promover e melhorar as sementes nativas e crioulas. “Há uma correlação entre perda de conhecimento, de cultura, e a perda de sementes”. O banco de sementes do IMAP vende, compra, dá crédito de sementes e as distribui para projetos comunitários como hortas escolares. “A melhor maneira de guardar as semente é no campo, plantadas. Mas também comercializamos para dar a elas um valor econômico. É uma forma de valorizá-las”.

Hoje, 18 anos depois, a comunidade de Patchitulul ainda não está do jeito que Roni imaginava. Mas já está bem melhor. “As pessoas têm luz, casas decentes, banheiros, trabalho”. E eles mesmos fizeram isso. Nós apenas criamos oportunidades e abrimos mercados”. Além do banco de sementes, estimularam a comunidade a desenvolver o comércio de artesanato e um serviço de catering culinário que atende os eventos do instituto e os cursos regulares de permacultura. “Outra razão do IMAP estar aqui é abrir um acesso para o lago, que foi privatizado ao longo dos anos”. A margem sul do lago Atitlán é massivamente ocupada por casas de alto padrão que pertencem à elite guatemalteca. “Antes a comunidade dependia diretamente do lago”, conta Roni.

O outro programa principal do IMAP é a educação permacultural. O instituto é reconhecido internacionalmente por seu trabalho e capacitação em permacultura.

O trabalho do IMAP na Guatemala é nobre, louvável – e difícil. O país expõe de uma maneira muito evidente os problemas da América Latina, originados na época da colonização e que permanecem praticamente iguais. “A terra e a riqueza estão concentradas em poucas mãos. O sistema é o mesmo que havia na colônia. Aqui, o sistema ainda é feudal”. Roni está falando da Guatemala, mas poderia ser sobre praticamente qualquer país da América Latina – que desde a chegada dos espanhóis se tornou o celeiro que enriqueceu as metrópoles europeias às custas do sangue e suor dos homens e da fertilidade e biodiversidade da terra.

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