proteção animal

Dizer mais sim do que não na proteção animal

Ana* está indo para o trabalho quando, de dentro do ônibus, vê uma moça no canteiro central da avenida tentando evitar que um pequeno ser atravesse a movimentada via. Ana reconhece um cachorro, e, no seu cérebro, é ligada a sirene de alerta. Sem pensar, desce do ônibus – ainda bem longe do trabalho – e corre para o canteiro. Começa ali mais um resgate.

Assim como Ana, muita gente para o que está fazendo – desce de ônibus, estaciona carro, se atrasa, viaja, muda de rumo – para resgatar animais feridos, perdidos, abandonados, necessitados. O resgate inclui levar para casa (ou para hotelzinho, ou para casa de amigos), tratar eventuais doenças ou feridas, vermifugar, castrar, vacinar – e então conseguir uma adoção responsável. São pessoas, como Ana, comuns: têm seus trabalhos, famílias, empregos, hobbies, problemas, relacionamentos, e geralmente não são veterinários. E nem são ricos. Pessoas, enfim, como você e eu.

Heitor
Heitor, no dia em que foi resgatado, depois da tosa

A cachorra que Ana resgatou no canteiro da avenida tinha sido queimada e enterrada. Estava em uma situação horrível, quase morta. Ana pediu ajuda no Facebook e recebeu muita. O caso apareceu em vários programas de televisão. Muita gente colaborou com dinheiro para o tratamento da cadelinha, que, apesar de todo o sofrimento pelo qual passou, se mostrou brincalhona e simpática à medida que começou a se recuperar. Depois de meses na clínica e outros no hotel, foi adotada junto com outro cão, também resgatado pela Ana, de quem ficou muito amiga. Foi um final feliz.

Às vezes dá tudo muito certo, o bicho é saudável, é fofo, é adotado rapidamente. Mas nem sempre é assim, e o resgatante pode ter gastos demais, o bicho pode demorar para ser adotado (ou nunca ser – conheço histórias de protetoras que mantêm animais há anos em hotéis que elas pagam), ou adoecer e morrer. Quem costuma resgatar animais invariavelmente tem histórias tristes pra contar. O cachorro que, apesar de todo o cuidado, morreu de cinomose (depois de 15 dias internado e uma conta de 2 mil reais). O gato idoso que passou pelo menos os últimos dois meses da sua vida sendo bem tratado, mas era doente renal.

Sinatra
Sinatra, idoso renal

Resgatadores amadores aprendem também, ainda que na marra, que às vezes é melhor não intervir. Eu só aprendi recentemente, quando abriguei duas gatas que vieram de uma colônia que vive em uma casa vazia. Passaram tanto tempo sem contato com humanos que, ao serem trancadas em um quarto para serem socializadas, se estressaram. Tentaram fugir várias vezes, uma se jogou na janela e quebrou o vidro. Depois de dois meses, ainda não deixavam ninguém chegar perto. Foram devolvidas para a casa que está esperando ser alugada. São, no total, sete gatas – pelo menos, foram todas castradas. Por mais que a gente queira, nem todos os bichos entendem e aceitam (ou precisam de) nossas boas intenções. Nem quando seria melhor pra eles.

Sábado à noite, porta de um bar hipster atrás do cemitério da Consolação. Na frente do banquinho da hostess dorme um cachorro meio molhado da chuva, coberto por um paninho de chão, alheio aos pés que esbarram nele ao entrar no bar. Muito cansado, foi alimentado pelos frequentadores e deitou, protegido pela moça. Alguém vai levar?, pergunto. Acho que sim, diz ela. Se um cliente não levar, a garçonete leva. O cachorro é assunto de diversas pessoas durante a noite, todos interessados pelo futuro do cão. Quando vou embora, cadê o cachorro? Um moço levou, diz a hostess, feliz.

Lola
Lola, resgatada no parque Villa Lobos, hoje mora na Guarda do Embaú com minha tia

Mas nem sempre é possível ajudar. Eventualmente, Ana teve que parar de resgatar. Estava afundada em dívidas, mesmo com toda a publicidade que o caso da cadelinha teve, e mesmo com toda a ajuda que recebeu. Chegou a ter oito resgatados ao mesmo tempo. Sem poder leva-los para a sua casa, mantinha todos em clínicas, hotéis e lares temporários. Sua saúde estava comprometida.

Infelizmente, há muitos cães e gatos abandonados e vivendo nas ruas – e um número muito menor de casas para abriga-los e de gente disposta a adotá-los. É preciso reconhecer que não se pode ajudar a todos, e que há um limite para o que podemos, individualmente, fazer. Para a manutenção da saúde mental, convém conseguir discernir: agora não posso, dessa vez não vai dar. É preciso ter tempo e disponibilidade para um resgate, e, se você não tem, é capaz de se atrapalhar e pôr em perigo relacionamentos, empregos etc. Quem não sabe reconhecer o limite corre o risco de ter problemas. Quem nunca ouviu falar de acumuladores de animais, geralmente mulheres, que enchem a casa de bichos que não podem cuidar e acabam vivendo em ambientes sujos, insalubres, com animais doentes e sem conseguir alimentá-los?

Visconde
Visconde, que tinha cinomose

Na maioria dos casos, se enrola de algum jeito quem não tem claros os motivos que o levam a resgatar um animal. Eu sinto um aconchego interior enorme quando vejo um bicho que estava na rua, com frio e fome, abrigado, quentinho, alimentado. Nunca esqueço da cara que o Heitor (meu cão, resgatado em 2013 na avenida Heitor Penteado) fez quando começou a entender que estava seguro comigo. E lembro de quando era pequena e morava com meus avós: brincava de montar o “quartinho” pros meus bichos de pelúcia: um tapetinho, o guarda roupa, a cama, e o bicho nela, coberto até o pescoço, quente, protegido e amado por mim, indo dormir tranquilo. Algo na minha psique “engancha” na proteção animal (ou vice-versa). Enquanto não reconhecemos a projeção e promovemos o “desengate”, o resgate é cheio de peso emocional, sofrimento, ansiedade e dificuldade de tomar decisões isentas.

Mas é preciso, mais que tudo, não ficar com medo de fazer alguma coisa, quando é possível fazer alguma coisa. Lembro até hoje, com dor, de dois cães que eu encontrei e não ajudei – não porque não podia, mas porque não quis me envolver. Um no canteiro central da Sumaré. Ele parecia perdido e se mostrava interessado em seguir quem quer que lhe desse atenção. Eu estava correndo, não queria interromper o exercício, e não tinha para onde leva-lo – na época eu morava em um prédio que não permitia cães. Outra vez, no estacionamento do parque Villa Lobos, um filhote fazia contato com todo mundo, esperando que alguém o pusesse dentro do carro. Era segunda-feira, eu tinha que trabalhar, estava com pressa e morava naquele mesmo prédio ainda – mas ele era filhote, bonitinho, e bem adotável. Eu podia ter levado para a casa de uma amiga, teria sido um resgate e uma adoção fáceis. Eu podia ter dito sim. Eu disse não, mas mesmo assim não deixei os cachorros lá: levo os dois comigo até hoje, sete anos depois, na memória e no arrependimento.

Desde então, comecei a dizer mais sim do que não.

Noel Rosa
Noel Rosa, meu último hóspede temporário (que virou definitivo junto com sua irmã Lola Maria)

*O nome é de mentira e alguns detalhes são ficcionais, mas a história e os fatos são reais.

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O que fazer se achar um bicho na rua? Veja a entrevista com Lê Tolentino, que resgatou Ziggy.

Veja a história do resgate do Sinatra, o gato de olho azul da foto aí em cima.

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