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Terra e comida na América Latina

Guatemala: uma vila na margem do Lago Atitlán. Não tem nada, só algumas casas, plantações de café, um campo de futebol, um pequeno comércio. Mas terra tem bastante, subindo montanha acima. E também tem muito lixo: embalagem de salgadinhos, principalmente, debaixo dos pés de café. No mercadinho, propaganda de refrigerante e prateleiras cheias de comida enlatada, embalada, industrializada. De vegetais, só uma cesta de tomate. 

Essa região da Guatemala sofre com o problema da “dupla carga nutricional”: mães obesas com bebês desnutridos — me conta a nutricionista do projeto Nutrição Nativa, do IMAP — Instituto Meso-Americano de Permacultura. Não há nutrientes na comida vendida nos mercados. Os alimentos locais que eram consumidos pelos povos originais quase não o são mais. O amaranto foi alvo de uma campanha difamatória dos espanhóis, relacionando a poderosa planta ao “demônio”, e hoje quase nenhum local conhece esse que é um dos alimentos mais nutritivos das Américas. O projeto do IMAP tem o objetivo de ensinar o povo a plantar e consumir comida da região; boa, simples e nutritiva (saiba mais sobre o projeto).

Esse cenário que encontrei na Guatemala me deixou impressionada e aterrada. Coincidiu com minha leitura de As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano), bem na parte em que ele fala sobre o uso da terra pelos colonizadores. A terra nas colônias foi, desde a chegada dos espanhóis, usada para extração. Primeiro, com a mineração. Logo em seguida, os espanhóis começaram o que até hoje é a marca da agricultura convencional: extração de minerais do solo, sem reposição.

As plantações de comida dos povos originais, de subsistência, deram lugar a monocultivos de espécies que alimentaram e enriqueceram os países europeus. O camponês passou a trabalhar nos monocultivos ou no seu processamento por salários tão baixos que não lhe permitiam comprar comida. A comida deixou de existir nessa terra tão rica.

Desde então, pouco mudou. Foi a conclusão a qual cheguei vendo esse exemplo tão contundente e didático da Guatemala, mas que na verdade se desenrola praticamente na América Latina inteira. Hoje, no Brasil, o agronegócio não planta comida — e sim commodities. O camponês, o trabalhador rural, está apartado da terra que no passado lhe dava alimento. “A globalização alimentar, concebida para beneficiar o agronegócio e os supermercados, privatizou os bens comuns, acabou com aqueles que se preocupam em trabalhar a terra e transformou os alimentos em um negócio”, afirma Ester Vivas Esteve no livro O negócio da comida — Quem controla nossa alimentação? (Editora Expressão Popular). A terra, que deveria fornecer comida, está nas mãos de corporações com finalidades de mercado. 

Fiquei triste demais na Guatemala, em parte por esse aprendizado. É extremamente cruel o que a colonização fez com os povos originais e que o “mercado” continua fazendo. O trabalhador, explorado, empobrecido, e longe da terra, não recebe nem o suficiente para comprar a pouca comida produzida no que antes era seu chão, de onde tirava o seu sustento. Ao tirar a terra de um povo, se tira também a autonomia e a potência, alienando-o dos meios e do conhecimento necessários para uma vida digna. Chega a ser perverso: a gente tira esse povo da terra, faz com que se esqueçam como se cultiva alimento, e depois os vicia na comida industrializada pobre em nutrientes que vendemos e que vai mantê-los na ignorância e na imobilidade.

Mas a gente resiste. Nessa viagem que fiz pela América do Norte e Central eu vi projetos em áreas rurais e urbanas que resgatam os saberes — e sementes, e espécies — tradicionais e que promovem uma retomada (ainda que simbólica) de territórios, aqueles mesmos que foram e continuam sendo tirados do índio, do caboclo, do agricultor familiar. No México eu vi as milpas dos povos pré-hispânicos (consórcio de milho, feijão e abóbora) sendo plantadas no meio da cidade. Vi também as chinampas (método de cultivo milenar em águas de lagos) sendo revitalizadas e voltando a produzir alimentos. Na Colômbia vi rappers de uma comunidade violenta reclamando a terra debaixo do asfalto, plantando nas calçadas, e lembrando os manos perdidos para a violência através da agricultura urbana. Cuba me deu um vislumbre do que pode acontecer quando comunidade e poder público se unem para produzir comida nas cidades. E no Brasil vejo em tudo que é lugar o povo abrindo espaços entre os edifícios e carros para o cultivo de comida e a cooperação entre humanos; e o pessoal que está largando empregos nas cidades pra ir fazer agroflorestas, inspirados pela mensagem da agricultura sintrópica, enchem meu coração de alegria.

Enfim, são tempos bons pra quem percebe que na não-conformidade reside a possibilidade de ação transformadora. Estamos juntos, à serviço.

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